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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Neurociência: como ela ajuda a entender a aprendizagem


Conclusões da área sobre como o cérebro aprende trazem à tona questões tratadas por grandes teóricos da Psicologia, como Piaget, Vygotsky, Wallon e Ausubel. Saiba como elas podem enriquecer as discussões sobre o ensino


A emoção interfere no processo de retenção de informação. É preciso motivação para aprender. A atenção é fundamental na aprendizagem. O cérebro se modifica em contato com o meio durante toda a vida. A formação da memória é mais efetiva quando a nova informação é associada a um conhecimento prévio. Para você, essas afirmações podem não ser inovadoras, seja por causa da sua experiência em sala, seja por ter estudado Jean Piaget (1896-1980), Lev Vygotsky (1896- 1934), Henri Wallon (1879-1962) e David Ausubel (1918-2008), a maioria da área da Psicologia cognitiva. A novidade é que as conclusões são fruto de investigações neurológicas recentes sobre o funcionamento cerebral. 

"O que hoje a Neurociência defende sobre o processo de aprendizagem se assemelha ao que os teóricos mostravam por diferentes caminhos", diz a psicóloga Tania Beatriz Iwaszko Marques, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estudiosa de Piaget. O avanço das metodologias de pesquisa e da tecnologia permitiu que novos estudos se tornassem possíveis. "Até o século passado, apenas se intuía como o cérebro funcionava. Ganhamos precisão", diz Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), também piagetiano. Mas é preciso refletir antes de levar as ideias neurocientíficas para a sala. 

A Neurociência e a Psicologia Cognitiva se ocupam de entender a aprendizagem, mas têm diferentes focos. A primeira faz isso por meio de experimentos comportamentais e do uso de aparelhos como os de ressonância magnética e de tomografia, que permitem observar as alterações no cérebro durante o seu funcionamento. "A Psicologia, sem desconsiderar o papel do cérebro, foca os significados, se pautando em evidências indiretas para explicar como os indivíduos percebem, interpretam e utilizam o conhecimento adquirido", explica Evelyse dos Santos Lemos, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e especialista em aprendizagem significativa, campo de estudo de Ausubel. 

As duas áreas permitem entender de forma abrangente o desenvolvimento da criança. "Ela é um ser em que esses fatores são indissociáveis. Por isso, não pode ser vista por um único viés", diz Claudia Lopes da Silva, psicóloga escolar da Secretaria de Educação de São Bernardo do Campo e estudiosa de Vygotsky. 

Sabemos, por exemplo, com base em evidências neurocientíficas, que há uma correlação entre um ambiente rico e o aumento das sinapses (conexões entre as células cerebrais). Mas quem define o que é um meio estimulante para cada tipo de aprendizado? Quais devem ser as intervenções para intensificar o efeito do meio? Como o aluno irá reagir? "A Neurociência não fornece estratégias de ensino. Isso é trabalho da Pedagogia, por meio das didáticas", diz Hamilton Haddad, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da USP. Como, então, o professor pode enriquecer o processo de ensino e aprendizagem usando as contribuições da Neurociência? 

Para o educador português António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, responder à questão é o grande desafio do século 21. "A estrutura educacional de hoje foi criada no fim do século 19. É preciso fazer um esforço para trazer ao campo pedagógico as inovações e conclusões mais importantes dos últimos 20 anos na área da ciência e da sociedade", diz. 

Ao professor, cabe se alimentar das informações que surgem, buscando fontes seguras, e não acreditar em fórmulas para a sala de aula criadas sem embasamento científico. "A Neurociência mostra que o desenvolvimento do cérebro decorre da integração entre o corpo e o meio social. O educador precisa potencializar essa interação por parte das crianças", afirma Laurinda Ramalho de Almeida, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e especialista em Wallon. 

Para tornar mais claro o diálogo entre Neurociência, Psicologia e Pedagogia, NOVA ESCOLA mostra cinco conclusões neurocientíficas ligadas à aprendizagem. Confira, nos comentários dos especialistas, o que grandes teóricos dizem a respeito desses temas e reflita sobre a relação deles com sua prática em sala.

Emoção : Ela interfere no processo de retenção da informação 

Os pesquisadores Larry Cahill e James McGaugh, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, publicaram nos anos 1990 os resultados de estudos em que foram mostradas duas séries de imagens a pessoas. Uma tinha um caráter emocional e a outra era neutra. O grupo teve uma recordação maior das emotivas. Por meio de um tomógrafo, foi observada a relação entre a ativação da amígdala (parte importante do sistema emotivo do cérebro) e o processo de formação da memória. "Quanto mais emoção contenha determinado evento, mais ele será gravado no cérebro", diz Iván Izquierdo, médico, neurologista e coordenador do Centro de Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
A emoção, para Piaget

"O psicólogo valoriza o termo afetividade, em vez de emoção, e diz que ela influencia positiva ou negativamente os processos de aprendizagem, acelerando ou atrasando o desenvolvimento intelectual." 

- Lino de Macedo


A emoção, para Vygotsky 

"Para compreender o funcionamento cognitivo (razão ou inteligência), é preciso entender o aspecto emocional. Os dois processos são uma unidade: o afeto interfere na cognição, e vice-versa. A própria motivação para aprender está associada a uma base afetiva." 
- Claudia Lopes da Silva


A emoção, para Wallon


"O pesquisador defende que a pessoa é resultado da integração entre afetividade, cognição e movimento. O que é conquistado em um desses conjuntos interfere nos demais. O afetivo, por meio de emoções, sentimentos e paixões, sinaliza como o mundo interno e externo nos afeta. Para Wallon, que estudou a afetividade geneticamente, os acontecimentos à nossa volta estimulam tanto os movimentos do corpo quanto a atividade mental, interferindo no desenvolvimento." 
- Laurinda Ramalho de Almeida 


Implicações na Educação


O professor, ao observar as emoções dos estudantes, pode ter pistas de como o meio escolar os afeta: se está instigando emocionalmente ou causando apatia por ser desestimulante. Dessa forma, consegue reverter um quadro negativo, que não favorece a aprendizagem.


Motivação: Ela é necessária para aprender


"Da mesma forma que sem fome não apreendemos a comer e sem sede não aprendemos a beber água, sem motivação não conseguimos aprender", afirma Iván Izquierdo. Estudos comprovam que no cérebro existe um sistema dedicado à motivação e à recompensa. Quando o sujeito é afetado positivamente por algo, a região responsável pelos centros de prazer produz uma substância chamada dopamina. A ativação desses centros gera bem-estar, que mobiliza a atenção da pessoa e reforça o comportamento dela em relação ao objeto que a afetou. A neurologista Suzana Herculano-Houzel, autora do livro Fique de Bem com Seu Cérebro(208 págs., Ed. Sextante, tel. 21/2538-4100, 19,90 reais), explica que tarefas muito difíceis desmotivam e deixam o cérebro frustrado, sem obter prazer do sistema de recompensa. Por isso são abandonadas, o que também ocorre com as fáceis. 
A motivação, para Piaget 

"É a procura por respostas quando a pessoa está diante de uma situação que ainda não consegue resolver. A aprendizagem ocorre na relação entre o que ela sabe e o que o meio físico e social oferece. Sem desafios, não há por que buscar soluções. Por outro lado, se a questão for distante do que se sabe, não são possíveis novas sínteses.
- Tania Beatriz Iwaszko Marques


A motivação, para Vygotsky


"A cognição tem origem na motivação. Mas ela não brota espontaneamente, como se existissem algumas crianças com vontade - e naturalmente motivadas - e outras sem. Esse impulso para agir em direção a algo é também culturalmente modulado. O sujeito aprende a direcioná-lo para aquilo que quer, como estudar." 
- Claudia Lopes da Silva


A motivação, para Ausubel

Essa disposição está diretamente relacionada às emoções suscitadas pelo contexto. Pela perspectiva de Ausubel, o prazer, mais do que estar na situação de ensino ou mediação, pode fazer parte do próprio ato de aprender. Trata-se da sensação boa que a pessoa tem quando se percebe capaz de explicar certo fenômeno ou de vencer um desafio usando apenas o que já sabe. Com isso, acaba motivada para continuar aprendendo sobre o tema."
- Evelyse dos Santos Lemos


Implicações na Educação


A escola deve ser um espaço que motive e não somente que se ocupe em transmitir conteúdos. Para que isso ocorra, o professor precisa propor atividades que os alunos tenham condições de realizar e que despertem a curiosidade deles e os faça avançar. É necessário levá-los a enfrentar desafios, a fazer perguntas e procurar respostas.


Atenção: Ela é fundamental para a percepção e para a aprendizagem 


Pesquisas comportamentais e neurofisiológicas mostram que o sistema nervoso central só processa aquilo a que está atento. Em um estudo de Gilberto Fernando Xavier e André Frazão Helene, do Instituto de Biociências da USP, publicado em 2006 na revista Neuroscience, um grupo de pessoas passou por um teste que avaliava o desenvolvimento da habilidade de leitura de palavras espelhadas. Uma parte delas treinou escrever, de maneira imaginária, palavras invertidas. Outra pôde ler termos desse tipo. Depois, ambas conseguiram ler com rapidez palavras espelhadas criadas pelos pesquisadores. Um terceiro grupo, enquanto treinava a leitura e a escrita de termos espelhados, realizou outra tarefa de memorização visual. Tanto a memorização quanto a aquisição da habilidade de leitura invertida ficaram prejudicadas. Assim, comprovaram que, se o desvio de atenção é significativo, a aquisição de habilidade e a memorização sofrem prejuízo.
A atenção, para Piaget 


"De acordo com o psicólogo, prestamos atenção porque entendemos, ou seja, porque o que está sendo apresentado tem significado e representa uma novidade. Se há um desafio e se for possível estabelecer uma relação entre esse elemento novo e o que já se sabe, a atenção é despertada." 
- Tania Beatriz Iwaszko Marques 


A atenção, para Ausubel

"A mente é seletiva. Segundo Ausubel, só reconhecemos nos fenômenos que acontecem a nossa volta aquilo que o nosso conhecimento prévio nos permite perceber. Não hesitamos, por exemplo, em interromper uma atividade quando sentimos um cheiro de fumaça no ambiente. Conhecer padrões é fundamental para se dedicar, agir e aprender sobre o que importa." 
- Evelyse dos Santos Lemos


A atenção, para Vygotsky 

"No decorrer do processo de desenvolvimento, a atenção passa de automática para dirigida, sendo orientada de forma intencional e estreitamente relacionada com o pensamento. Ou seja, ela sofre influência dos símbolos de um meio cultural, que acaba por orientá-la. Atenção e memória se desenvolvem de modo interdependente, num processo de progressiva intelectualização." 

Claudia Lopes da Silva


Implicações na Educação


Falta de atenção não é sinônimo de indisciplina ou de desinteresse por parte das crianças. Ela pode ser decorrente de um meio desestimulante ou de situações inadequadas à aprendizagem. Para evitar isso, o professor deve focar a interação entre ele, o saber e o aluno, refletindo sobre as atividades propostas e modificando-as se necessário.

Plasticidade cerebral :O cérebro se modifica em contato com o meio durante toda a vida


A interferência do ambiente no sistema nervoso causa mudanças anatômicas e funcionais no cérebro. Assim, a quantidade de neurônios e as conexões entre eles (sinapses) mudam dependendo das experiências pelas quais se passa. Antes, acreditava-se que as sinapses formadas na infância permaneciam imutáveis pelo resto da vida, mas há indícios de que não é assim. Nos anos 1980, um estudo pioneiro do neurocientista norte-americano Michael Merzenich, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, demonstrou que o cérebro de macacos adultos se modificava depois da amputação de um dos dedos da mão. A perda do membro provocava atrofia dos neurônios da região responsável pelo controle motor do dedo amputado. Porém ele observou também que essa área acabava sendo ocupada pelos neurônios responsáveis pelo movimento do dedo ao lado.
A influência do meio, para Vygotsky 



"A cognição se constitui pelas experiências sociais, e a importância do ambiente nesse enfoque é fundamental. À medida que aprende, a criança - e seu cérebro - se desenvolve. A ideia é oposta à da maturação, de acordo com a qual se deve aguardar que ela atinja uma prontidão para poder ensiná-la." 
- Claudia Lopes da Silva


A influência do meio, para Wallon



"A relação complementar e recíproca entre os fatores orgânicos e socioculturais está presente em todas as análises de Wallon. Para ele, a criança nasce com um equipamento biológico, mas vai se constituir no meio social, que tanto pode favorecer seu desenvolvimento como tolhê-lo." 
- Laurinda Ramalho de Almeida


A influência do meio, para Piaget

"Para o estímulo provocar certa resposta, é necessário que o indivíduo e seu organismo sejam capazes de fornecê-la. Por isso, não basta ter um meio provocativo se a pessoa não participar dele ou, como complementaria o teórico, se ela for incapaz de se sensibilizar com os estímulos oferecidos e reagir a eles. A aprendizagem, portanto, não é a mesma para todos, e também difere de acordo com os níveis de desenvolvimento de cada um, pois há domínios exigidos para que seja possível construir determinados conhecimentos." 
- Lino de Macedo


Implicações na Educação


O aluno deve ser ativo em suas aprendizagens, mas cabe ao professor propor, orientar e oferecer condições para que ele exerça suas potencialidades. Para isso, deve conhecê-lo bem, assim como o contexto em que vive e a relação dele com a natureza do tema a ser aprendido.

Memória: Ela é mais efetiva na associação com um conhecimento já adquirido


A ativação de circuitos ou redes neurais se dá em sua maior parte por associação: uma rede é ativada por outra e assim sucessivamente. Quanto mais frequentemente isso acontece, mais estáveis e fortes se tornam as conexões sinápticas e mais fácil é a recuperação da memória. Isso se dá por repetição da informação ou, de forma mais eficaz, pela associação do novo dado com conhecimentos já desenvolvidos. "Podemos simplesmente decorar uma nova informação, mas o registro se tornará mais forte se procurarmos criar ativamente vínculos e relações daquele conteúdo com o que já está armazenado em nosso arquivo de conhecimentos", afirmam os médicos e doutores em Ciência do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ramon M. Cosenza e Leonor B. Guerra no livro Neurociência e Educação: Como o Cérebro Aprende (151 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 44 reais).
A memória, para Vygotsky


"Uma criança pequena constrói memórias por imagens, associando uma a outra. No decorrer do desenvolvimento, ela passa a fazer essa relação conceitualmente, pela influência e pelo domínio da linguagem - o componente cultural mais importante. Com isso, passa de uma memória mais apoiada nos sentidos para outra mais escorada na linguagem. Portanto, a memória relacionada às aprendizagens escolares é uma função psicológica que vai se definindo durante o desenvolvimento." 
- Claudia Lopes da Silva


A memória, para Ausubel 

"Aprendemos com base no que já sabemos. Essa premissa é central na Teoria da Aprendizagem Significativa, de Ausubel. É preciso diferenciar memória de aprendizagem significativa. A primeira é a capacidade de lembrar algo. Já a segunda envolve usar o saber prévio em novas situações - um processo pessoal e intencional de construção de significados com base na relação com o meio (social e físico)." 
- Evelyse dos Santos Lemos


A memória, para Wallon

"O pressuposto da psicogenética walloniana é que somos seres integrados: afetividade, cognição e movimento. Portanto, informações e acontecimentos que nos afetam e fazem sentido para nós ficam retidos na memória com mais facilidade. Como a construção de sentido passa pela afetividade, é difícil reter algo novo quando ele não nos afeta." 
- Laurinda Ramalho de Almeida


Implicações na Educação


Aprender não é só memorizar informações. É preciso saber relacioná-las, ressignificá-las e refletir sobre elas. É tarefa do professor, então, apresentar bons pontos de ancoragem, para que os conteúdos sejam aprendidos e fiquem na memória, e dar condições para que o aluno construa sentido sobre o que está vendo em sala.


Fonte:http://novaescola.org.br/conteudo/217/neurociencia-aprendizagem

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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

"A boa formação de professores tem de ter estreita ligação com a prática"



Entrevista com Katherine Merseth, diretora do Programa de Formação de Professores de Harvard


A melhoria no sistema educacional, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, tropeça na falta de uma visão clara sobre o que queremos da Educação. A matemática Katherine Merseth, diretora do Programa de Formação de Professores de Harvard, repetiu essa crítica durante visita a São Paulo, a convite do Instituto Península. Docente de um dos cursos mais concorridos da Escola de Graduação de Educação, ela defende que treinar professores para a prática pode reverter o baixo desempenho nas escolas. 

O que torna um professor excelente? 

KATHERINE MERSETH Ele tem uma conexão forte com o aluno, identifica as necessidades de aprendizagem dele, se destaca por dominar o assunto que leciona e por escolher a melhor maneira de ensiná-lo para a turma. A combinação desses últimos três fatores se resume no termo “pedagogical content knowledge”, cunhado pelo professor Lee Shulman, da Universidade de Stanford, na Califórnia. A questão maior é entender como cada um aprende. Há uma explosão de saberes em torno da ciência cognitiva, com imagens do cérebro e estudos sobre quais partes dele são ativadas quando se olha, conversa, lê e escreve. A neurociência tem o poder de alterar a prática dos professores, mas infelizmente ainda não é tema de formação. 

O que não pode faltar em uma boa formação de professores? 

Uma estreita ligação com a prática, incluindo observações e análises de sala de aula, com a ajuda de mentores. Além do conhecimento profundo do conteúdo da disciplina escolhida, é preciso, claro, estudar psicologia do desenvolvimento e ciência cognitiva. 

Por que a Matemática é sempre considerada problema? 

A maneira como a disciplina é apresentada na escola faz toda diferença. Um grupo de pesquisadores descobriu que os alunos indicaram uma forte dependência do professor, considerando-se incapazes de aprender sozinhos. Mas a crença mais deformante na sociedade americana é de que a Matemática é difícil e dominada por uma minoria com talentos e habilidades especiais. 

Como assim? 

Acreditam que você tem talento para Matemática ou não! Mães americanas, japonesas e chinesas foram questionadas sobre quais fatores, entre habilidade, esforço, dificuldade da tarefa ou sorte, colaboravam para que seus filhos fossem bem-sucedidos na escola. As americanas colocaram a habilidade em primeiro lugar, já as asiáticas privilegiaram o esforço. Crianças japonesas e chinesas se esforçam porque suas mães dão valor à dedicação. Acreditar em habilidade inata não só minimiza a responsabilidade pessoal, mas também contribui para que os maus resultados em Matemática sejam socialmente tolerados. 

Como alterar essa visão distorcida? 

Esforços só com foco na revisão curricular ou apenas na formação inicial e continuada dos docentes não vão funcionar. Mudar o currículo sem transformar a prática de ensino ou aumentar o interesse social enquanto forem ministrados os mesmos conteúdos entediantes seria uma estupidez. Em vez disso, é necessário um esforço multifacetado e abrangente, que permita expandir as possibilidades do aprendizado da Matemática, área em que houve descobertas fascinantes nas últimas décadas. Só que nenhuma delas ainda é abordada com regularidade nas escolas.
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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

[VÍDEOS] Práticas inovadoras em diferentes realidades brasileiras

Dois professores e um diretor: os intelectuais da Educação debatem soluções para a melhoria do aprendizado



Confira abaixo a íntegra do debate promovido pela Rede Conectando Saberes, em parceria com a Fundação Lemann, sobre Práticas inovadoras de educação em diferentes realidades brasileiras. A conversa foi realizada pelo Canal Um Brasil e pela Nova Escola e reuniu Willmann Silva Costa, diretor do Colégio Chico Anysio no Rio de Janeiro, Gina Albuquerque, professora da rede público do Distrito Federal, e Jayse Antonio da Silva Pereira, professor de Itambé (PE). A mediação é de Leandro Beguoci, diretor editorial e de produtos de Nova Escola.



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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

FORMAÇÃO DE PROFESSORES: Tem um estagiário de Pedagogia ou Licenciatura em minha sala de aula. E agora?



A cada semestre letivo, as escolas de Educação Básica recebem estagiários de Pedagogia e dos cursos de Licenciatura. Grande parte da expectativa desses estudantes está no encontro com o professor, a classe e na possibilidade de conhecer a rotina escolar.

É durante esse período que muitos dos futuros professores terão a primeira oportunidade prática de realizar procedimentos de diagnóstico, atividades de observação e docência assistida. Os grandes objetivos do estágio são poder observar e refletir sobre os conhecimentos profissionais em ação e colaborar, com assistência, com o trabalho pedagógico. Assim, esta atividade curricular obrigatória na graduação transforma a escola em um espaço privilegiado da formação inicial e os professores como formadores dos novos docentes.

Como professora de Estágio na Universidade, identifico que essa tarefa de professor-formador nem sempre está clara para os regentes e alguns equívocos são identificados nessa relação. Um exemplo disso são os profissionais que se recusam a receber os estagiários em suas classes ou aqueles que os consideram substitutos temporários e abandonam os graduandos, sem assisti-los devidamente.

Mas como o regente da turma pode receber um estagiário em sua classe e colaborar de fato para sua formação? Compartilho algumas sugestões que considero importantes para refletir sobre esse papel:

- A Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008, regulamenta o estágio e define a natureza das atividades a serem realizadas pelos estudantes. Ela deve ser conhecida e seguida por todos os profissionais envolvidos;

- Prepare-se para esse processo. Estude, por exemplo, sobre a ideia de ateliê de formação, como é proposto na segunda parte do livro Educando o Profissional Reflexivo: Um Novo Design para o Ensino e a Aprendizagem, de Donald Schon. O autor oferece pistas para a construção dessa relação de formação envolvendo um profissional com expertise e um aprendiz;

- Realizar o estágio é um direito do estudante que deve ser acolhido pela comunidade escolar e incluído nos rituais pedagógicos, por meio de parcerias formalmente estabelecidas com as faculdades de Licenciatura e Pedagogia;

- No primeiro dia, apresente o estagiário para a turma e explique, de modo simples e objetivo, por que ele está ali, quanto tempo ficará e o que fará. Isso ajuda que os alunos se sintam seguros com a presença desse visitante;

- O estagiário não deve substituir o professor em nenhuma circunstância. Ele deverá atuar sempre sob a supervisão do regente em sala;

- Ocupe o lugar de profissional experiente e que serve de inspiração para o aprendiz. Algumas estratégias são bem valorizadas pelos estudantes em seus relatórios de estágio, como compartilhar com documentos pedagógicos relevantes como projetos em andamento na sala de aula, planos de aula, diagnósticos das crianças, registros e acompanhamento dos estudantes. Outra atividade que se destaca é dar orientação de leitura e reservar um tempo para dialogar com o futuro professor sobre as percepções que ele tem dessa prática pedagógica, questionamentos e possíveis contribuições e instigue o estudante a realizar reflexões sobre a prática educativa e registrá-las;

- Para muitos que ainda estão em formação, a experiência de dar aulas é uma tarefa complexa. Por isso, nas atividades de docência assistida, conheça e contribua com a programação das aulas e apoie o estagiário na superação de desafios;

- Além do dia a dia da sala de aula, incentive que o estagiário participe de reuniões de planejamento, de reuniões de pais e de atividades que possam ampliar a visão dele sobre as práticas institucionais, seus avanços e desafios;

- Ocupe com mais conforto esse lugar de professor-formador com a leitura do livro Professores Imagens do Futuro Presente, de Antonio Nóvoa. O segundo capítulo, intitulado Para uma formação de professores construída dentro da profissão, nos permite refletir que é preciso trazer a formação docente para dentro da profissão de modo que educadores da Educação Básica formem colaborativamente com as universidades os futuros professores;

- Não tenha medo de se expor. Converse sobre os desafios da profissão com o estagiário. Assim, este também poderá ser um processo formativo para você.




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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

“O País está apostando na formação de máquinas” diz professor da UNIFESP



Juvenal Savian Filho, professor de Filosofia da Unifesp, aponta prejuízos da educação tecnicista do novo Ensino Médio e da não obrigatoriedade de Filosofia


Se a Medida Provisória da reforma do Ensino Médio vingar, a próxima leva de alunos brasileiros a se formar na etapa terá, muito provavelmente, noções de Filosofia e Sociologia muito parecidas com aqueles que estudaram na época do regime militar, quando, em 1971, uma lei praticamente extinguiu as disciplinas da escola, substituindo-as pela patriótica Educação Moral e Cívica (EMC).

Com o mote de flexibilizar o currículo, a MP prevê a diminuição do número de disciplinas obrigatórias no Ensino Médio, entre elas Filosofia, Artes, Sociologia e Educação Física. Apesar do MEC ter garantindo que o conteúdo não será eliminado, ficando sujeito ao que estiver previsto na futura Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a decisão é controversa.

Para Juvenal Savian Filho, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade Federal de São Paulo, na prática, “só haverá Filosofia nas escolas em que houver professores dessa disciplina e que lutarem por seu direito de continuar a existir”.

Em entrevista ao Carta Educação, o professor alerta para os prejuízos de uma educação tecnicista, que nega a modernidade da reflexão e a abertura ao espírito cosmopolita. “As ‘máquinas humanas’ funcionam bem só até certo ponto. Se suas necessidades mais profundas não forem atendidas com cultura, reflexão, arte, teremos muitos outros problemas, entre eles a desilusão, a falta de sentido, a violência, o ódio, o extermínio dos diferentes e tantas outras mazelas”, diz.

Carta Educação: É sabida a necessidade de repensar o modelo de Ensino Médio no Brasil. No entanto, uma reforma via Medida Provisória (MP) impossibilitou a discussão entre os principais atores da área. Quais os prejuízos disso?

Juvenal Savian Filho: Os prejuízos são vários, a começar do reforço da mentalidade autoritária que caracteriza a sociedade brasileira: boa parte de nosso povo e a imensa maioria dos políticos brasileiros têm uma enorme dificuldade em abrir-se de maneira adulta ao debate, ao espírito de contradição e à autocrítica; preferem continuar vivendo sob a proteção de “atos de autoridade”. Uma MP feita esta é mais um gesto autoritário que reforça uma submissão cega em nome de uma ilusória e perigosíssima confiança em “governantes fortes”. Além disso, ela é um desrespeito pela sociedade civil e pelos diálogos que já existem. Não quero usar a nomenclatura do “golpe”, mas essa MP é do registro de um golpe: ela pode ser legal (do ponto de vista jurídico), mas é radicalmente ilícita, porque é profundamente antidemocrática.

CE: Como o senhor enxerga a reorganização do currículo em cinco áreas de conhecimento (linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional)? O estudante que escolher pela última ou por qualquer outra área não correrá o risco de ter uma educação “especialista” demais, restringindo sua visão e entendimento de mundo?

JSF: Organizar os saberes por grandes áreas não tem nada de ruim em si mesmo. Mas também nem de bom. O real sentido dessa organização dependerá do modo como ela será feita. Meu receio é que ela seja uma porta para a formação de mão-de-obra técnica, sem espírito humanista, sem abertura à cultura. Além da especialização precoce, os jovens serão obrigados a viver sem o que nos caracteriza como seres humanos: o espírito de reflexão e de produção cultural; e quem se dedicar a isso (escolhendo a área de ciências humanas, por exemplo) será visto como um ser de outro mundo, pois os padrões de orientação serão a produção técnica, o pensamento especializado, a economia, a estratificação social – coisas em que nem os países mais ricos apostam mais. Nosso País está retrocedendo mais de um século em termos de visão educativa.

CE: Entre os conteúdos que deixam de ser obrigatórios no Ensino Médio estão Artes, Educação Física, Filosofia e Sociologia. Segundo o MEC, o conteúdo dessas disciplinas não será eliminado, mas ficará sujeito ao que estiver previsto na futura Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Na prática, o que isso significa para o ensino de Filosofia? A disciplina ficará negligenciada em relação às demais?

JSF: Ao deixar o futuro dessas disciplinas na dependência do que ocorrerá com a BNCC, a equipe atual do MEC quis atacar a LDB. E conseguiu. A menos que a MP seja revertida. Na prática, só haverá Filosofia nas escolas em que houver professores dessa disciplina e que lutarem por seu direito de continuar a existir. É um retrocesso inquestionável, embora com aparência de coisa boa. Em vez de entrar na modernidade da reflexão, da abertura ao espírito cosmopolita, tal como inclusive a UNESCO elogiava com o retorno da Filosofia no Ensino Médio brasileiro [Sociologia e Filosofia eram obrigatórias no currículo brasileiro até 1971 quando foram banidas por quase quatro décadas pela reforma educacional do regime militar], a equipe do MEC parece ter se formado no século XIX ou estar a serviço dos patrões do século XIX.

CE: Como fica a formação de professores diante dessa mudança? Na MP está descrito que a contratação poderá ser feita sem a necessidade de concurso público, isso é positivo ou negativo?

JSF: Se vivêssemos no melhor dos mundos, seria bom, pois pode haver autodidatas. Não há dúvida. Mas estamos no Brasil que voltou para o século XIX. Talvez o MEC tenha previsto que, com as novas mudanças, haverá ainda menos pessoas interessadas em ser professor. Além de desvalorizados, os professores serão transformados em instrutores técnicos, isso vai desanimá-los ainda mais. Haverá então debandadas de professores, que irão para outras áreas. Mas o MEC, então, já prevê a solução: contratar outros instrutores técnicos, mas que não precisarão ter a formação acadêmica, esclarecida e humanista que, em princípio, todo professor deveria ter. Com isso poderá continuar publicando estatísticas positivas.

CE: A falta de compromisso com essas áreas é um exemplo da falta de olhar crítico sobre o sistema escolar? Quais os prejuízos de não introduzir os jovens à Filosofia (e Sociologia)?

JSF: O prejuízo é muito claro. Trata-se simplesmente da falta de acesso ao que há de mais humano em nós: a reflexão esclarecida e humanista, o autoconhecimento e a autocrítica, a busca de compreensão de nossos semelhantes (e de compaixão), entendimento das dinâmicas que formam a vida em sociedade. Em vez disso, nosso Brasil está apostando em técnicos, em mão de obra especializada, em gente que constrói o progresso. Não há nada de mal nisso. Pelo contrário. Aliás, segundo bons sociólogos, é um fato a necessidade de melhorar o preparo técnico da mão-de-obra no Brasil. No entanto, ao retirar ou diminuir ainda mais o ensino de disciplinas como Filosofia, Artes e Sociologia, o nosso país está apostando na formação de máquinas, não na formação de seres humanos. Mas não nos iludamos, as “máquinas humanas” funcionam bem só até certo ponto. Se suas necessidades mais profundas não forem atendidas com cultura, reflexão, arte, teremos muitos outros problemas, entre eles a desilusão, a falta de sentido, a violência, a falta de amor, o ódio, a anulação e o extermínio dos diferentes e tantas outras mazelas. O Brasil precisa decidir que tipo de futuro quer construir.


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