quarta-feira, 12 de abril de 2017

Professor teme que administração terceirizada de escolas desvalorize docentes

  


Terceirizar a administração de escolas estaduais, passando-as para organizações sociais (OS) poderá levar à desvalorização dos docentes, afirma Tadeu Arrais, professor associado do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG). Nessas escolas, será obrigatório um quadro mínimo de 30% de professores efetivos, contratatos por meio de concurso público do estado. Os demais poderão ser contratados pelas próprias OS, pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A questão, prevista no edital de chamamento das organizações sociais, divulgado no início deste ano, gerou insegurança entre professores e alunos. Embora a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce) garanta que nenhum dos professores do quadro efetivo atual será demitido, a redução dos já escassos concursos públicos para professores no estado preocupa – o último concurso foi em 2010.

Segundo Arrais, não há garantia de estabilidade para o professor. "Como a OS é privada, o orçamento funciona como o de uma empresa: se está apertado, tira de onde? Do salário e, depois, do custeio da máquina", diz o professor. "É um primeiro passo para a precarização do trabalhador, não há dúvida quanto a isso."

Arrais defende que mais do que pressionar os professores por resultados, é necessário dar condições para que eles trabalhem. As OS terão que cumprir metas de desempenho dos alunos para continuar gerindo as escolas. O professor teme, porém, que isso se reflita no dia a dia do profissional, que será pressionado e poderá ser demitido a qualquer momento. "A educação brasileira pública é boa? Sabemos que não é. Tenho que dar condições de trabalho para o professor, para o diretor, para o aluno e eu não dou essas condições", acrescenta.

A secretária de Educação de Goiás, Raquel Teixeira, argumenta que os professores contratados pelas OS receberão mais do que os que têm atualmente contratos temporários. "Hoje, um temporário, que ganha R$ 1,3 mil, de cara já vai começar a ganhar R$ 2,4 mil e com possibilidade de melhorar. Dependendo do desempenho, ele pode ser mais bem remunerado, mas é garantido o piso."

Concursos públicos

"Os concursos públicos continuarão a ocorrer, porque a figura do professor público é essencial", diz Arruda. "Os concursos não vão ocorrer com a frequência que se esperava, mas vão ocorrer. Há muitos anos que não tem concurso aqui no estado. Não sei dizer com que frequência vão ocorrer, mas a figura do professor público, integrante do magistério público, permanece essencial", ressaltou o procurador.

Segundo a secretaria, atualmente 70% dos professores do estado são efetivos. "Esse índice de efetivos vai cair, claro, as pessoas vão se aposentando. Vai ter um momento em que vai ter que fazer concurso público", explica Raquel.

Pelo Plano Nacional de Educação (PNE), lei federal que estabelece metas para melhorar a educação no Brasil no prazo de dez anos, até o ano que vem, 90% de todos os professores da educação básica deverão ser efetivos.  "Provavelmente, a lei será cumprida. Neste momento, não está previsto concurso público. Não quer dizer que a OS vai acabar com o concurso público. O PNE é uma lei maior que uma decisão estadual", acrescenta a secretária.

Organizações sociais

Pela proposta do governo estadual, organizações sociais, que são entidades privadas sem fins lucrativos, deverão cuidar da administração e infraestrutura das escolas e poderão também contratar tanto professores quanto funcionários administrativos. As OS serão também responsáveis pela formação continuada do corpo docente e pela garantia de melhorias no desempenho dos estudantes.

O pagamento de pessoal poderá consumir a maior parte dos recursos públicos recebidos pelas OS. Segundo o edital, a entidade selecionada poderá gastar até 95% desses recursos com despesas de remuneração, encargos trabalhistas e "vantagens de qualquer natureza, a serem percebidas pela diretoria, no exercício de funções de gestão, e empregados". Os professores contratados serão ligados à entidade privada. Caberá também à OS promover capacitação permanente tanto dos servidores públicos quanto dos contratados.

O projeto-piloto começará por 23 unidades da Subsecretaria Regional de Anápolis. Essas escolas têm de 60% a 95% dos professores no quadro efetivo, conforme dados divulgados no edital de chamamento das OS. A previsão é que haja pelo menos mais dois chamamentos ainda neste ano para ampliar o modelo para 200 escolas.

Fonte: Agência Brasil, em 25/1/2016. 
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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Em Audiência Pública , Sinpro Macaé e Região reafirma que Reforma da Previdência de Michel Temer provocará efeitos nefastos a classe trabalhadora.







A Câmara Municipal de Macaé realizou na noite de 04 de abril, em atendimento ao requerimento nº 343/2016 de autoria do vereador Marcel Silvano (PT) , uma Audiência Pública para avaliar os efeitos da “Reforma da Previdência”. Requerida pelo Sinpro Macaé e Região ,o evento reuniu servidores públicos municipais, professores, estudantes, sindicatos, partidos políticos ,vereadores, sociedade civil.

 


A Audiência contou com a participação dos vereadores Marcel Silvano (PT) que presidiu a sessão, e dos vereadores Valdemir da Silva Souza (PHS) e Maxwell Souto Vaz (Solidariedade), e ainda com a presença do professor Cesar Gomes Araujo (presidente do Sinpro Macaé e Região) e da professora Guilhermina Luzia da Rocha (secretária Geral do Sinpro Macaé e Região) e do professor Neto Severino (representante de relações institucionais do IFF/Macaé) e José Eduardo Guinâncio (diretor financeiro da MacaéPrev). Participaram ainda representantes dos Diretório Acadêmicos da UFF e UFRJ e de partidos políticos interessados na defesa dos direitos dos trabalhadores.



Durante a audiência todos os debatedores foram unânimes em ressaltar os efeitos nefastos da reforma sobre a classe trabalhadora e da necessidade de se conscientizar a população para barrar as medidas que estão sendo propostas pelo governo federal.
 



 A professora Guilhermina lembrou que esse ano a Previdência Social completa 94 anos de existência. "Em seus 94 anos a Previdência sempre foi vítima de ataques e saques. Ataques quando nos dizem que ela está falida, que é deficitária ou se tornará deficitária em breve. Saques, pelo assalto aos recursos disponibilizados pela nossa Constituição Cidadã realizados a partir da Desvinculação dos Recursos da União (DRU)", afirmou a professora Guilhermina. Para a professora é preciso mobilizar ainda mais a nossa população. 

 


O professor César Gomes achou importante ressaltar que o défícit da previdência é uma falácia que vem sendo desmentida por várias entidades. "A Associação Nacional dos Fiscais Previdenciários e o Dieese divulgaram relatórios que demonstram que o saldo na arrecadação do sistema previdenciário, além de um enorme capital retido nas inúmeras sonegações praticadas por grandes empresas e empresas públicas".

 



Durante a audiência, foi exibido o vídeo produzido pela Contee  "Reformar" a Previdência e a Seguridade Social ,  para esclarecer sobre os efeitos da reforma para os profissionais da educação. O vídeo deixa claro os problemas que os profissionais enfrentarão com a reforma. 



                     Integrantes Frente de Luta Contra a Reforma da Previdência presente na Audiência Pública

O vereador Marcel declarou ao final da Audiência que “a proposta de reforma da previdência, que é um ataque aos direitos dos trabalhadores no Brasil e que serão obrigados a praticamente não se aposentar. É uma reforma que acaba com o direito à aposentadoria e tem um efeito muito mais nocivo sobre as mulheres, profissionais de educação e segurança pública que tem direito a aposentadoria especial. Com essas propostas, estes profissionais não terão a mesma condição que está posta. Só não mexem nos judiciários, nos militares, em quem sempre teve boas e grandes regalias no país”.


  Sindicato dos Professores de Macaé 
  

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terça-feira, 4 de abril de 2017

NOTA PÚBLICA : Diretoria da Contee reafirma rejeição integral à reforma da Previdência





 

Diante da vitória da mobilização popular do último 15 de março, em que mais 1 milhão de trabalhadores/as de todo o país — entre os quais os/as professores/as e técnicos/as administrativos/as da educação privada, que paralisaram suas atividades em várias cidades brasileiras —, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee reafirma sua posição radicalmente contrária à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/16 e seu compromisso com a luta para derrubar o texto, que destrói a Previdência pública e toda a Seguridade Social.

A força das ruas teve impacto sobre os parlamentares e, agora, frente ao racha na base do governo quanto à PEC, ao enorme número de emendas apresentadas até esta sexta-feira (17) e à possibilidade aventada no Congresso de uma “reforma intermediária” — mas igualmente prejudicial —, a Confederação manifesta mais uma vez sua rejeição integral a qualquer reforma que retire direitos dos/as trabalhadores/as. Não aceitaremos nenhuma mudança e nenhum direito a menos!

A Diretoria Executiva da Contee, reunida ontem (16) e hoje (17) em Brasília, também reiterou o acerto representado pelo movimento unificado dos/as trabalhadores/as do ensino privado com aqueles que atuam na rede pública, mostrando a insatisfação generalizada da educação brasileira contra o ataque aos direitos previdenciários, do qual o magistério da educação básica é uma das maiores vítimas. Mas também foi crucial que essa mobilização acontecesse em conjunto com as demais categorias que paralisaram suas atividades e tomaram as ruas no dia 15, o que deu mostras da força e da unidade de toda a classe trabalhadora. O recado foi claro: o/a trabalhador/a brasileiro/a não vai tolerar nenhum retrocesso.

O fortalecimento demonstrado no dia 15 segue agora. A Contee dará continuidade à campanha nacional contra o #RouboDaPrevidência, a qual denuncia o quanto a PEC 287 — uma das medidas mais antipopulares e criminosas da história brasileira — engana a sociedade, rouba o futuro e retira a dignidade. Sob o falso argumento de um suposto rombo na Previdência — já comprovadamente desmentido por entidades como a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), o Departamento  Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e a própria Contee (na entrevista concedida à TV Contee pela economista Denise Gentil) —, o que existe é um roubo: do dinheiro da aposentadoria de milhões de contibuintes, que o governo destina a outros fins, e dos direitos de todos os cidadãos e cidadãs.

A Contee também segue firme sua atuação junto ao Congresso Nacional, bem como mantém a convocação para que as entidades filiadas continuem seus trabalhos de mobilização nas bases de deputados/as e senadores/as, a fim de cobrar deles um posicionamento claro sobre a reforma da Previdência e expor aqueles que estivem contra os/as trabalhadores/as.

Não vamos aceitar qualquer reforma da Previdência ou outra tentativa de acabar com direitos trabalhistas.

 Brasília, 17 de março de 2017.

Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee

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Thiago de Mello, 91: “vivemos ocupação estrangeira”



                                                                   

Thiago de Mello, 91, Poeta da Floresta.

A história é poética. Não poderia ser diferente. Personagens principais: um poeta e uma poesia. Thiago de Mello, ainda moço, está preso em uma cela, “muito estreita”, lembra ele. E, pelo tom de sua voz, podemos até preencher os espaços vazios do relato e imaginar uma luz sombria; um policial resvalando o cassetete nas grades enferrujadas; paredes com pintura desvanecida pelo tempo, inscrições e até mesmo com aqueles risquinhos de contagem do tempo.

A entrevista é de Roney Rodrigues, jornalista, publicada por Outras Palavras, 02-04-2017.

Estamos em 1968. Os militares estão no poder e o poeta “rodou” depois de participar da Passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro. É certo que ele pensa que se fodeu e que a incerteza sobre o que o aguarda nas próximas horas o consome. Mas ele lê na parede: “Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar”. Dá também para imaginar como seus olhos se iluminaram e até ouvir uma trilha sonora em crescente. Afinal, é seu poema épico, “Estatuto do Homem (Ato Institucional Permanente)”, que escreveu em uma noite chilena de 1964, renunciando ao seu posto diplomático (era, então, adido cultural no Chile) após os militares brasileiros tomarem o poder e publicarem o Ato Institucional nº 1.

Mas, enquanto Thiago de Mello me conta essa edificante história sobre seu famoso poema, só penso em um Ford EcoSport. Aquela caminhoneta percorrendo cenários idílicos e despovoados em uma propaganda da TV. Uma voz, em tom grave, ao fundo, declamava o Estatuto do poeta amazonense. Pelo menos, foi assim que, na infância, aprendi a admirá-lo: em um comercial de carro. Queria saber quem era aquele cara que falava que as janelas deveriam ficar sempre abertas para o verde e que poderíamos brincar com os rinocerontes.

Ouço a história e, enquanto decido se conto ou não sobre isso de poesia/EcoSport, faço um comentário trivial.

Eis a entrevista.

Então o senhor chegou a ser preso na época da ditadura…

Eu fui preso, mas não me gastaram, não. Fiquei um mês e meio só, interrogatório, tal isso, tal aquilo.
Essa conversa aconteceu no ano passado. Thiago de Mello visitava São Paulo para comemorar seus 90 anos – segundo ele, completados em 30 de março de 2016 com “disposição renovada”. O Poeta da Floresta, amazonense de Barreirinha, vive atualmente à beira do rio Andirá, a 330 quilômetros de Manaus, e seria homenageado pela Biblioteca Mário de Andrade.

Estávamos no lobby de um hotel do centro; ele vestia branco, calças e camisa, combinando com sua cabeleira, o que lhe conferia ares messiânicos. Perguntou a minha idade e, como se avaliasse minha juventude, chacoalhou a cabeça.

Eu pertenço a uma geração em que os editores queriam valorizar o escritor-moço e corriam atrás. O José Olympio [que fundou a editora homônima, em 1931] a [editora] Brasiliense com o Caio Prado Júnior, Péricles Eugênio [da Silva Ramos, editor de diversas antologias], José Paulo Paes [da editora Cultrix]. Hoje tem a 7Letras [editora carioca, uma das pioneiras da “impressão por demanda”] em que um moço como você tem que pagar para publicar. Ninguém publica mais poesia porque a alma do negócio não é mais o sonho, mas o lucro.

Eu também balancei a cabeça, em resposta, condescendente. Ele continua.
Mas sonhar só vale quando se tem os pés cravados no chão. Eu posso sonhar de levar vocês dois [está presente também seu assessor de imprensa] para a floresta: vocês entram no coração da floresta comigo e, dali a pouco, vocês estão até namorando uma cabocla.

Um sonho possível. Só ter milhas para comprar a passagem de avião.

É. Vamos trabalhar?

Vamos. É meio clichê, eu sei, falar que “há muitos brasis”. Mas o senhor está agora aqui, no centro de São Paulo, sendo que há dois dias estava em uma cidadezinha do interior do Amazonas. Viu – e vê – esse contraste. Qual sua impressão desses brasis?

Quero que tu saias da terceira pessoa do singular e eleve-se. Subas para a segunda, para o tu. Na floresta, quando vou sair para o barco, vêm as crianças e falam: “poeta, poeta, tu me levas pro outro lado?”. Mas isso na cidade de São Paulo é difícil.

Acho que a resposta que eu tenho para ti é que essa variedade, diversidade, só valoriza essa sociedade humana chamada Brasil. Porque a gente a encontra no lugar mais diferente – e para usar uma palavra pobre e infeliz do ponto de vista de uma sociedade capitalista – “mais atrasado”, como, por exemplo, essa pequena comunidade no meio da floresta onde eu vivo – chamada Freguesia do Andirá, nome antigo dado pelos portugueses – e em São Paulo, cidade considerada a maior metrópole da América Latina.

Aconteceu alguma coisa em São Paulo. Para começar: o Mário de Andrade viu em um seringueiro dormindo um homem igual a ele e ficou espantando! Ele não sabia que os homens da floresta que cortavam a seringueira para tirar leite também dormiam cansados e, quando viu isso, pensou: “ué, ele é igual a mim”. Mas, quando Macunaíma vem para cá, eles se encontram.

A primeira vez que sai da floresta – com 15 anos de idade, para ir pro Rio de Janeiro porque lá [no estado Amazonas] não havia faculdade – eu me espantei: tem bonde aqui! Essa diversidade valoriza, ao invés de confundir, em um difícil processo de aculturação. É difícil. Veja: a criança pergunta à mãe: “por que a gente não tem essas coisas aqui também?”. Vê, na televisão e na internet, a cidade e a selva: aqui tem metrô e lá só tem canoa! De vez em quando, aparece um motor rabeta: essa é a máxima velocidade para eles.

Isso tudo enriquece a sociedade humana dentro da qual a gente vive e trabalha para que seja uma sociedade humana solidária. Estamos longe de ser, mas cada um de nós faz a sua parte. A minha é a palavra escrita. Meus versos. Meus pensamentos. Meus sentimentos. Aproveito para dizer que eu sou um poeta que, cada vez mais, acredita que não há uma separação formal e infeliz entre o sentimento e a inteligência.

É, uma oposição muito trabalhada na história, não é mesmo?

Isso! Para começar, os dois são cérebro. O sentimento não está no coração. Aqui [dá duas batidinhas no peito, com a mão espalmada] está o músculo cardíaco que controla as coronárias, os vasos, a circulação correndo pelas artérias. Inteligência está aqui [cutuca com o indicador a fronte]. E sentimento também. Tanto que muita gente morre de infarto com gol do Corinthians.

No seu trabalho estão sempre presentes a questão amazônica e a integração latino-americana. É um sonho antigo a busca pela “Pátria Grande”, vem mesmo antes de Bolívar. Mas como superar as feridas coloniais? Parece que o Brasil dá as costas para a América Latina.

O trabalho pioneiro que iniciei como adido cultural das embaixadas do Brasil em países da América Latina – que eu chamei de integração cultural – era muito mais amplo. Era a ideia de que um país rico pudesse ajudar um país pobre, liberando impostos e integrando mão de obra. Certas riquezas capitalistas da construção industrial ficaram somente no campo da ciência. Quando eu estava no Chile, embora eu tivesse ajuda do próprio governo chileno e da embaixada do Brasil, fazíamos inúmeras reuniões com representantes da América Latina. Éramos pioneiros. Falávamos que éramos – e continuamos a ser – um continente que não se conhece. Um continente cujas relações são só em nível de governo e de ministérios da economia. Os verdadeiros valores culturais de cada país não estão na diferença de idioma que existe entre países de língua hispânica, tanto que na Venezuela ninguém sabe nada do Peru e no México não se sabe nada do Equador. É preciso afirmar isso com esperança, mas dizer a verdade: não nos conhecemos.

Tratamos de fazer isso [integrar os países] através dos escritores, dos poemas, dos cantores, dos músicos e consegui, depois de seis meses de integração, trazer o Pablo Milanés [cantor e compositor cubano] para cantar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Também trouxemos escritores numa ação conjunta. Fizemos a promoção do Chile no Brasil, mandando vários arquitetos, escritores e jornalistas para lá.

Integrar é conhecer. Depois da fase de se conhecer, se passa para uma maior: a conscientização da necessidade de integrar. Essa integração que se pretende em nível continental sequer é feita entre os estados brasileiros. As universidades, por exemplo, não têm um nível de integração. Vivemos ilhados.
Por que a gente não se conhece?

É cultural, algo que veio também do nosso passado colonial. Embora naquele tempo do Brasil Colônia se conhecesse muito de Portugal e, hoje, se conhece pouco. Ninguém lê mais Eça de Queiroz aqui. Está se lendo pouco Machado de Assis, nosso principal escritor. Eu faço uma pergunta para você. Você se comunica com outros órgãos do país?

Sempre tem a internet e dá para rolar alguma comunicação. Mas, no geral, sempre ficamos “ilhados” nesse trechinho Rio-São Paulo.
 Pois é pouco. Vivemos ilhados.

O discurso de preservação e de sustentabilidade parece, muitas vezes, apropriado pelo capitalismo. Falo isso porque muito se fala da natureza, mas não de que essas ações predatórias são políticas e de quem mais sofre com ela: o povo das florestas.

Sim, é mais sério. Assim como o Brasil desconhece a vida de nossos irmãos da América Latina, também desconhece o maior manancial de vida que tem o planeta: a floresta amazônica. Para a integração entre floresta e povo é preciso, em vez de preservar, salvar a floresta. Senão não há integração. E sem o povo a floresta é só paisagem. Quem dá vida à floresta – no sentido da dinâmica da vida dela – é o homem. É o homem que passa a conhecê-la numa relação mágica: bate no tronco e conhece a resistência da árvore contra ventanias e temporais; através de experimentações, conhece a lenha; descobre até remédios. Para todas as doenças que existem no mundo há um remédio. Nesse momento se estuda a casca de uma árvore chamada unha-de-gato e o chá de sua casca que pode ser usado para tratamento do câncer, desde que o diagnóstico tenha sido feito precocemente. Quando os portugueses chegaram na floresta os índios já tinham a copaíba [anticicatrizante] e a andiroba [antibiótico], o melhor curativo que tem. Eu dou o exemplo de Anita, minha gata selvagem de rua – salvamos a vida dela –, que me arranhou aqui [mostra o braço direito]. Passei pomada de copaíba e, três dias depois, olha só! [sorri, mostrando algumas discretas marcas] Mas eu não vou castigar ela, não. Ela não é educada, coitada.

Não há um risco – ou até um fato, como estamos vendo em muitos casos – desse discurso de preservação ser apropriado pelo capitalismo?

Há muito tempo a ação intensa do poder do capitalismo sobre a floresta é só de cifrão. É um exemplo danoso: abatem a floresta para extrair suas riquezas. E, com a avanço do capitalismo, muitas áreas das florestas são escolhidas para se abater e serem transformadas em áreas agrárias, como acontece hoje na Amazônia com o plantio de soja. No estado do Mato Grosso há um enorme trabalho de abatimento dessas áreas para a pecuária. Também temos muitos estrangeiros comprando terrenos na floresta. Vivemos uma ocupação estrangeira e o Brasil até hoje não tem uma política florestal. Isso a Marina [Silva, liderança da Rede] diz muito bem. No estado amazônico um empresário chega ao governo e faz decretos para ampliar seus hectares [reduzindo as áreas de preservação] e passa a adquirir propriedades. Não temos uma política florestal rígida. Eu tenho um livro chamado “Amazonas – Pátria da Água” [Editora Bertrand Brasil, 2002] que trata disso. Eu busquei contribuir para o conhecimento da floresta com meus livros. São seis ou sete livros só sobre a vida na floresta: suas lendas, seus mitos, seus milagres, suas grandezas, suas misérias também. Afirmei com veemência que, dentre os bilhões de vegetais que ali existem, não chegam a cinco por cento aqueles cujos princípios químicos ativos foram estudados no Brasil. Os naturalistas, os biólogos e os cientistas europeus estudaram a floresta. Nós, infelizmente, não estudamos. Agora, você não quer saber nada de poesia né?

Já que perguntou, aqui vai uma pergunta poética. O senhor… quer dizer, você escreveu que a “liberdade é algo vivo e transparente”. A gente está fazendo bom uso dela ou nesse contexto político estamos mesmo num “pântano enganoso”?

Nós estamos. Eu estou celebrando a juventude dos meus 90 anos. Só vim a saber fazer a minha parte, para servir a determinada causa, quando fui atingido pelo raio da pobreza e da injustiça. Com a formação que eu tive dos meus pais, comecei a ter uma consciência solidária. Tenho minha arte que é comprometida com a construção de uma sociedade humana solidária. Eu fiz essa opção. Eu coloco a minha arte a serviço da conscientização e acredito que é possível a construção de uma sociedade humana solidária. Coloca essa frase no final.

Fonte: Revista ihu on-line ( Instituto Humanitas Unisinos ADITAL )


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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Quanto tempo você terá de trabalhar até se aposentar com a PEC 287




      Simulador permite comparar situações com base nas regras atuais e nas propostas pelo governo na PEC 287

O blog do  Sinpro Macaé e Região coloca à disposição de seguidores a calculadora de aposentadoria do Dieese. Com a calculadora o professor, ou qualquer trabalhador, pode calcular o tempo de contribuição para se aposentar.

O/A PROFESSOR/A  tem como calcular quanto tempo falta para se aposentar caso a Reforma da Previdência entre em vigor, inclusive considerando a regra de transição de 50% proposta pelo governo Temer. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em parceria com nove centrais sindicais, lançou aplicativo que permite que os trabalhadores simulem e comparem o resultado dos cálculos para concessão do benefício. 
A calculadora é uma ferramenta que ajuda os trabalhadores a calcularem o tempo para se aposentarem e os efeitos nefastos da PEC 287.

Professor mobilize-se contra essa reforma que retira direitos. Faça como algumas escolas tem feito, leve a calculadora para a porta da escola e mostre aos pais de alunos como será a aposentadoria deles. 


A “calculadora da aposentadoria” está em www.dieese.org.br/calculadoraaposentadoria/ e http://aposentometro.org.br.

 Mobilize também sua escola para todos pararmos o Brasil no dia 28 de Abril com a Greve Geral.

 SINDICATO DOS PROFESSORES DE MACAÉ E REGIÃO