terça-feira, 21 de novembro de 2017

21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher







Começa neste 20 de novembro os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher. No Brasil, a data foi escolhida para ser concomitante ao Dia Nacional da Consciência Negra, com o objetivo de enfatizar a dupla discriminação sofrida pela mulher negra.

De acordo com o Disque 180, as mulheres negras representam 58,8% das vítimas em casos de violência doméstica. Elas também são 65,9% das que sofrem com a violência obstétrica, como aponta a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Já o Ministério da Saúde mostra que elas morrem mais em decorrência do parto: são 53,9% dos casos.

As mulheres negras também enfrentam desigualdade no ambiente de trabalho. Segundo o IBGE, o rendimento médio delas é de R$ 800 ao mês. Já homens brancos chegam a ganhar quase o dobro: R$ 1.559.

“Essa é uma realidade que temos que combater diariamente em todos os espaços. Temos que falar sobre o tema, orientar a sociedade e acabar, de uma vez por todas, com o racismo e a violência contra a mulher, que, casados, cria o que há de mais repugnante na sociedade”, avalia a secretária de Mulheres da CUT Brasília, Sônia de Queiroz.

Para tentar resolver o problema, foi criada em 2003 a Secretaria Especial de Política para Mulheres. Desde então, o país reconhecia a necessidade de um olhar mais cuidadoso para a melhoria da qualidade de vida das mulheres negras, porém a pasta foi extinta pelo governo Temer.

Saiba mais

A Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres é uma mobilização anual, praticada simultaneamente por diversos atores da sociedade civil e poder público engajados nesse enfrentamento. Desde sua primeira edição, em 1991, já conquistou a adesão de cerca de 160 países. Mundialmente, a Campanha se inicia em 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, e vai até 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, passando pelo 6 de dezembro, que é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Como no Brasil a campanha começa antes, no dia 20 de novembro, são 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher.

Fonte: com Rede Brasil Atual


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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Pretos ou pardos são 63,7% dos desocupados no Brasil Geral






Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), o rendimento dos trabalhadores pretos e pardos também era menor: R$ 1.531, enquanto o dos brancos era de R$ 2.757.

Dos 23,2 milhões de empregados pretos ou pardos do setor privado, apenas 16,6 milhões tinham carteira de trabalho assinada. Outro dado relevante da pesquisa é que a participação dos trabalhadores pretos e pardos era superior à dos brancos na agropecuária, na construção, em alojamento e alimentação e, principalmente, nos serviços domésticos. É o caso do vigilante Everton Souza, de 35 anos. Ele trabalhava com serviços gerais em uma empresa que presta serviços para órgãos públicos e quem se destacava neste emprego, tinha a oportunidade de fazer um processo seletivo para ser promovido. Após passar por algumas fases, disseram que ele não tinha o perfil para a vaga.

“Eu e mais dois se destacamos, só que só tinha uma vaga. Beleza. Aí nós fizemos a seleção entre nós, fizemos a dinâmica, aí eu saí melhor do que os outros dois camaradas. Só que, quando ele viu, tipo assim, ele olhou para mim e eu acho que ele viu que eu era negro e falou que eu não tinha o perfil adequado para a vaga que eles tinham disponível, sendo que eu tinha sido o melhor de todo o processo seletivo lá que foi feito. Me senti discriminado.”

O emprego doméstico no Brasil ainda tem vestígios das heranças escravocratas e os dados da Pnad Contínua apontam que os pretos e pardos representavam 66% dos trabalhadores domésticos no Brasil. De acordo com Secretário Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Juvenal Araújo Júnior, o Dia da Consciência Negra, comemorado nesta segunda-feira, dia 20 de novembro, é mais um dia para nós discutirmos a luta contra o racismo.

“Ela serve para que nós possamos realmente mostrar através, não só de um dia, todos os dias são dias de consciência negra, todos os dias são dias de reflexões, mas, principalmente, é um dia de nós contarmos a história realmente do negro no Brasil. Temos vários líderes negros, negras, que realmente se sacrificaram para que nós pudéssemos discutir estas questões ligação a importância da luta contra o racismo.”

A pesquisa do IBGE aponta também que somente 33% dos empregadores são pretos ou pardos.

Racismo institucional 

Campanha feita pelo governo do Paraná, Conselho Estadual da Promoção à Igualdade Racial e Assessoria Especial de Juventude, mostra que o racismo institucional diferencia candidatos e empregados segundo a origem étnica, cor de pele ou cultura.

Diversos profissionais brancos, que estão em busca de emprego, são convidados para participar de uma entrevista em uma empresa fictícia. Durante a seleção, são oferecidas vagas difíceis de encarar, com direito a bullying, assédio moral, salários inferiores aos demais profissionais e até alterações em características físicas. No filme, nenhum dos candidatos brancos aceitou trabalhar em tais condições. É aí que vem a mensagem principal da campanha: se você não aceita isso para você, por que um negro deveria aceitar?


Fonte: Diap

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A valorização da identidade negra para combater ações de discriminação e preconceito — uma reflexão necessária











Por Guilhermina Rocha




         O ano de 2017 está sendo marcado como ano de retrocesso, com seguidas retiradas de direitos duramente conquistados, ataques esses resultantes da Emenda Constitucional 95, da Lei das Terceirizações, da reforma trabalhista e da reforma da Previdência, esta ainda em tramitação.

            Sabemos das dificuldades, mas avaliamos ser importante dividir este momento com aqueles e aquelas que desejam uma educação verdadeiramente emancipadora, humanista e não racista.

            Nesse sentido, tomando o que estabelece a legislação vigente e as políticas públicas, em especial, a implementação das leis 10.639/2003 e 11.645/2007, podemos afirmar que por si só essas normas não garantirão essa superação. 

            Hoje, religiões de matrizes africanas são grandes alvos de intolerância, violência e preconceito. Vale lembrar que a Lei 10.639/03 estabelece que devem ser ensinados nas escolas temas ligados à cultura afro-brasileira, incluindo as religiões. Como na prática isso não acontece e a ignorância das pessoas não tem limite, praticantes são demonizados e vistos como perigosos, o que resulta em muitas ações violentas.

            Os 130 anos que nos separam da Lei Áurea não foram suficientes para resolver uma série de problemas decorrentes das dinâmicas discriminatórias forjadas ao longo dos quatro séculos de regime escravocrata. Não precisaremos fazer muito esforço para compreender a extrema necessidade de diminuir a desigualdade sócio-econômica a que está submetida a população negra de nosso país, que corresponde a 53,6% da população brasileira. 

            Trazendo para nossa atualidade, se considerarmos os mapas de escolaridade encontrado no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), bem como os dados da publicação do Inspir (Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial), quanto à  escolarização, referente ao ensino fundamental completo, veremos que a taxa dos negros representa 47%, sendo 71,6% do número de analfabetos do país. Além desses dados, a evasão escolar é muito maior entre crianças e jovens negros e negras. Por causa da pobreza, grande parte deles precisa trabalhar para ajudar no sustento da casa. Quando o trabalho é excessivamente extenuante, ininterrupto, com carga horária abusiva (normalmente em funções operacionais, como limpeza, jardinagem ou outros serviços pesados), muitos não resistem e abandonam a escola.  

            A mulher negra tem que se desdobrar para ganhar o mínimo do mínimo. As mulheres negras trabalham e sofrem mais discriminação no trabalho, duplamente, pela  remuneração rebaixada e falta de condições dignas. Pode-se dizer que 20% das mulheres negras no mercado de trabalho preenchem cargos em trabalhos domésticos, em que somente um terço delas são contribuintes da Previdência Social.  Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o salário médio dos brancos é de R$ 1.097,00 e dos negros é de R$ 508,90. 

            Ainda de acordo com as estatísticas, as mulheres negras também são as que morrem proporcionalmente mais, consequência natural” uma vez que são mais pobres e dependentes do sistema público de saúde, completamente sucateado. Quanto à violência contra as mulheres, na última década o número de assassinatos de mulheres brancas diminuiu 9,3%, enquanto entre as mulheres negras aumentou 54%.  

            É também perceptível a violência policial contra as pessoas negras, abordadas com muito mais frequência do que as brancas durante as  revistas policiais, e mortas duas vezes mais. Os negros são os primeiros suspeitos, julgados por suas roupas e por sua cor. E, no sistema carcerário, a população negra no Brasil está em torno de 66%, sendo que maioria dos presos não concluiu o ensino fundamental.

            Este dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, nos leva a refletir: que tipo de consciência é esta que construímos no decorrer de nossa história?

            Por isso, reafirmamos ser necessário que problematizemos a questão da diversidade étnico-racial no âmbito do currículo das escolas, tarefa tão imprescindível quanto afirmar e estabelecer princípios, objetivos, estratégias para o desenvolvimento de práticas da educação das relações étnico-raciais.

            A educação é um ato permanente, dizia Paulo Freire e, nesse sentido, é necessário que elaboremos instrumentos para a construção de uma sociedade antirracista, que privilegie o ambiente escolar como um espaço fundamental no combate ao racismo e à desigualdade social.


Profª Guilhermina Rocha

Especialista em Educação e historiadora
Diretora do Sindicato dos Professores de Macaé e Região (Sinpro Macaé e Região)
Coordenadora da Secretaria de Gênero, Etnia e Diversidade da Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino no Estado do Rio de Janeiro (Feteerj)
Diretora da Plena da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee)



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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Judith Butler responde aos ataques de ódio sofridos no Brasil


 


A filósofa norte-americana Judith Butler, que foi alvo de ataques de ódio durante sua passagem pelo Brasil na última semana, respondeu às manifestações de intolerância que sofreu nos últimos dias. Em vídeo publicado pela TV Boitempo, Butler comenta os discursos agressivos dos quais foi vítima e aponta para a escalada mundial conservadora.


“O mundo que os conservadores querem destruir, o mundo gay e lésbico, o mundo trans, o mundo feminista, já é muito poderoso. Eles não têm nenhuma chance de destruí-lo”, disse a intelectual de 61 anos. Butler também afirmou que esse mundo “está sendo cada vez mais aceito e, quanto mais é aceito, com mais raiva eles ficam”.

“É muito difícil para as pessoas que têm se beneficiado dessa dominação e se beneficiado do caráter hegêmonico do casamento heterossexual entender que outras pessoas que não são heterossexuais possam querer se casar, ou pessoas que não querem se casar, mas querem viver juntas e ter filhos, ou que mulheres possam querer ter filhos por conta própria através do uso de tecnologia reprodutiva, ou trabalhadoras do sexo possam querer ter direitos pelo trabalho que fazem e aposentadoria quando forem idosas”, disse Butler.

“Todas essas reividicações (…) embaralham a família heterossexual”, afirmou a filósofa que, entretanto, salientou que “existem heterossexuais casados e com filhos que também apoiam o casamento gay e lésbico, ou apoiam pessoas transexuais, ou apoiam pessoas intersexo, ou apoiam, mães solteiras, ou tecnologia reprodutiva, (…) então nem todos os heterossexuais são tão defensivos, nem todas as famílias heterossexuais pensam: ‘Ah, toda família deve se parecer exatamente como a nossa'”.

Assista ao vídeo completo publicado pela TV Boitempo.

Intolerância

Butler veio ao Brasil para promover seu mais recente livro publicado no Brasil, “Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo”, lançado pela editora Boitempo neste ano, e para participar do seminário “Os Fins da Democracia”, realizado no Sesc Pompeia, na última terça-feira (07). Durante o seminário, manifestantes se reuniram em frente ao Sesc Pompeia para protestarem contra a presença e as ideias de Butler.

Enquanto outros manifestantes se juntavam para dar apoio à filósofa, cartazes com discurso de ódio e insultos eram proferidos pelos conservadores, que também queimaram um boneco de pano com o rosto de Butler.

Na manhã da última sexta-feira (10), Butler foi agredida ao embarcar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Segundo relatos de testemunhas, a escritora estava na área de check-in quando foi perseguida por uma mulher que segurava um cartaz com a foto desfigurada de Butler e gritava repetidos xingamentos, além de empurrá-la com o cartaz feito de madeira e cartolina.



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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A venda do pré-sal, um desastre para o Brasil







No leilão do pré-sal realizado na sexta-feira 27, a Petrobras e o Brasil perderam, mas multinacionais como a Statoil fizeram o negócio do século. O presidente da empresa, Pedro Parente, mostrou um desconhecimento espantoso sobre o setor petrolífero e ajudou concorrentes com informações estratégicas, acusa o renomado geólogo Luciano Seixas Chagas.

O resultado desastroso evidencia o enorme dano ao País resultante da retirada da obrigatoriedade de participação daquela estatal em todos os ativos do pré-sal, diz Chagas.

Funcionário da Petrobras por 31 anos e consultor há 14, atuou em cerca de 60 negócios no pré-sal e em áreas terrestres, domésticas e da Austrália e da Nicarágua, entre outros países. Empresas brasileiras e da Noruega, Japão, Estados Unidos e Reino Unido fazem parte da carteira de clientes de Chagas, que concedeu a entrevista a seguir.






CartaCapital: Como o senhor analisa as declarações do presidente da Petrobras, Pedro Parente, sobre o leilão do pré-sal?

Luciano Seixas Chagas: Nunca vi um presidente falar previamente, emitir opiniões e revelar estratégias sobre onde vai competir num leilão de exploração, antecipando, inclusive, de quais áreas participará e as estratégias que adotará no caso, por exemplo, quanto à quase obrigatoriedade, autoimposta, de participação permanente com parceiros.

Agora podemos enxergar com clareza os riscos a que fomos submetidos com a retirada da obrigatoriedade de participação da Petrobras em todos os ativos do pré-sal dentro do seu polígono de ocorrência, principalmente nas áreas unitizáveis. Estas não oferecem riscos de qualquer ordem, pois a descoberta já existe e a estrutura com petróleo prolonga-se para outra área geográfica adjacente, visto que as estruturas cheias de óleo não respeitam os limites geográficos.

A eliminação da obrigatoriedade de participação da Petrobras no pré-sal e a “inocência” do presidente da Petrobras e do seu séquito, em um leilão recheado de raposas do mundo dos negócios, tiveram graves consequências.

CC: Quais são elas?

LSC: A mais grave é a não participação da Petrobras no melhor ativo ofertado, o de Carcará Norte, unitizável, deixando-o para a concorrência, que avidamente fez ofertas. Tivesse a Petrobras a obrigatoriedade referida, ficaria com ao menos 30% do ativo leiloado.

Com sua ausência, depreciou os demais ativos não selecionados, ajudando a concorrência. Isso porque, se aquela que mais e melhor conhece o pré-sal, no caso a Petrobras, abdica de determinados ativos, a concorrência, com menor acervo de dados para as suas análises, tende a acompanhar as posições da empresa dominante e a buscar associações nas parcerias, pois sabe que assim diminuem, obviamente, os riscos do negócio.

O que foi feito é algo inusitado no mundo dos leilões de petróleo e ocorreu em todas as áreas ofertadas, tanto as unitizáveis quanto as de maiores riscos.

CC: Qual o resultado para o País?

LSC: O Brasil perdeu, pois, em algumas áreas de maior risco, apesar de ainda atraentes, não foram feitas ofertas. Em outras, onde a Petrobras já tinha previamente se posicionado, as empresas fizeram ofertas associadas à da Petrobras ou isoladas, quando tinham conhecimento prévio ou feito estudos detalhados.Foi o caso da oferta de 50% em óleo excedente da Shell, segunda colocada isoladamente no ativo unitizável Carcará Norte, pois a empresa já teve, no passado, 20% do ativo Carcará, contíguo, a Sul, justo o que foi vendido à Barra Energia (10%) e Queiroz Galvão (10%).

A razão da oferta generosa e perdedora (segundo lugar) da Shell em Carcará Norte foi uma decorrência do conhecimento prévio que tinha e da sua análise do mau negócio que fizera ao vender a sua participação em Carcará.

Em resumo, perderam o Brasil e a Petrobras e, em minha opinião, o açodamento de Parente foi a principal razão da não oferta de Pau-Brasil, de maior risco, situada em área limítrofe do polígono do pré-sal, mas com grandes possibilidades de ter petróleo numa nova fronteira.

Fica difícil entender a atuação de uma companhia que prima em ajudar a concorrência e desvalorizar a si própria, como fazem os brilhantes “gestores” também em outras áreas da Petrobras, em nome de supostas boas práticas negociais e gerenciais. Algo inusitado.

Na Bahia, diz-se que, se algo surreal acontece no Brasil, isso ocorreu antes naquele estado. O Brasil de Temer, Pedro Parente e seu séquito, em que até mesmo noções mínimas de ética há muito foram para o espaço e perdeu-se completamente a noção de honradez, é surreal no mundo.

CC: Parente disse, em entrevista, que a Petrobras não participou do Campo de Carcará, o mais bem avaliado, porque teria de fazer investimentos em equipamentos especiais, haveria muita pressão no campo e um alto nível de gás carbônico.

LSC: Chama atenção a sua absoluta falta de conhecimento sobre o setor, evidente em tudo o que diz sobre petróleo e gás. Nunca li tantas asneiras ditas à mídia, e tudo para justificar o injustificável.

É inadmissível, por exemplo, que o presidente de uma companhia do porte da Petrobras não saiba que em Carcará não existem os contaminantes gases carbônico e sulfídrico, muito presentes no restante do pré-sal e que corroem todas as tubulações, exigindo equipamentos especiais, mais caros, para a produção.

Essa condição especial é rara, proporcionará uma economia extraordinária e, portanto, uma lucratividade excepcional ao projeto Carcará. Não é admissível, ainda, que considere como campo aquilo que é apenas uma acumulação, apesar de ter reservas já delimitadas pelos três poços já perfurados.

Nenhum deles foi, entretanto, perfurado na base da estrutura, conforme recomendam as boas técnicas e o planejamento. Isso significa que a acumulação ainda não está delimitada em todo o seu potencial e essa é mais uma restrição à venda do modo como foi feita.

CC: Qual é o potencial de Carcará?

LSC: Exatamente pela elevada pressão comprovada existente nos seus reservatórios e a garantia da continuidade da acumulação a níveis inimagináveis, a julgar pelo já constatado nos dados de pressão comunicados, esse projeto proporcionará a melhor antecipação de caixa, algo quase utópico e desejado por todos que conhecem o pré-sal.E o que Parente diz? Justamente o contrário. Não é só isso. Se examinarmos as ofertas para a Petrobras vis-à-vis àquelas feitas às outras empresas que obtiveram áreas, unitizáveis ou não, veremos quão díspares foram os comportamentos de cada uma delas, no que se refere aos valores pagos.

CC: Houve alguma surpresa?

LSC: Surpresa foram os exorbitantes valores em óleo ofertados pela Petrobras para a União, bastante diferentes dos oferecidos pelo consórcio capitaneado pela Shell, de 11,53% em óleo excedente e existente na continuidade Sul do Campo de Gato do Mato, dela própria.

Exorbitam quando comparados aos 80% oferecidos pelo consórcio da Petrobras pelo entorno do Campo de Sapinhoá, ou aos 67,12% do consórcio formado pelas Statoil, a Exxon e a portuguesa Galp. Nesse último, entretanto, estamos falando do melhor ativo unitizável ofertado, vizinho da acumulação de Carcará, que teve os 66% de participação que a Petrobras detinha vendidos por ela à Statoil, por valor absurdamente irrisório.

Em termos volumétricos, é quase consenso entre quem avaliou a acumulação de Carcará – e tem coragem e a liberdade de dizer – que os volumes são da ordem de 2 bilhões de barris, com uma probabilidade de ocorrência maior que 80%, segundo as análises probabilísticas e as determinísticas também. Àqueles que consideram essa estimativa fantasiosa, informo que a Galp o confirmou na terça-feira 10.

CC: Como analisa a atuação da Statoil?

LSC: Provavelmente, foi o negócio do século para uma empresa estrangeira e uma das transações mais lesivas ao patrimônio da Petrobras e do Brasil, desde o início da exploração do petróleo. Considerando o volume mais provável, a Statoil pagou à Petrobras 2,5 bilhões de dólares por 66% de um volume total de 2 bilhões de barris.Foi esse o preço pago por cerca de 1,32 bilhão de barris, portanto, que ao preço do barril hoje, em torno de 5 dólares – cotação estimativa internacional para o petróleo comprovado pela descoberta de alguns poços e com boas imagens sísmicas –, valem cerca de 6,6 bilhões de dólares. Esse valor é bem compatível com os preços internacionais para negociação de ativos com o porte do volume descoberto e avaliado.

Ato contínuo, a Statoil adquiriu mais 10% da Queiroz Galvão, pelo mesmo valor, de acordo com o porcentual, e tornou-se a mais provável ofertante para a continuidade da acumulação no ativo Carcará Norte, com volumes estimados – também com probabilidade de 80% – em torno de 2 bilhões de barris.

Como a área Norte ainda era bastante promissora, a Statoil sabiamente levou a Exxon, ávida por estrear no mercado brasileiro, a fazer um carrego (quando uma empresa, além de pagar um valor, custeia outras fases do projeto em nome das sócias detentoras prévias da concessão) em 36,5% no ativo Carcará, sendo 33% dos 66% da Petrobras e 3,5% dos 10% da Queiroz Galvão.

A Statoil recebeu 1,3 bilhão de dólares, ficou com 760 milhões de barris em Carcará e deixou a Exxon com o mesmo montante no ativo, a portuguesa Galp com 400 milhões de barris e a Barra Energia com 200 milhões de barris.

CC: Qual foi o resultado final para a Statoil e a Exxon?

LSC: A Statoil e a Exxon, ao preço de 5 dólares por barril, têm em mãos, em óleo recuperável a ser ainda extraído, cerca de 5,11 bilhões de dólares cada; a Galp, 2,66 bilhões de dólares e a Barra Energia, 1 bilhão de dólares com o óleo a ser extraído.

Por tudo isso, a Statoil pagará apenas 1,78 bilhão, incluídas neste valor as despesas já feitas em Carcará pelo antigo consórcio. A Petrobras deveria ter feito com o ativo Carcará carregos do mesmo tipo realizado pela Statoil com a Exxon e a Galp, em vez de vendê-lo por preço de banana podre. Aprendam, senhores “gestores eficientes” da Petrobras!

CC: A Petrobras comemora, entretanto, o negócio.

LSC: A Petrobras, por inação e ignorância dos seus dirigentes, teve uma atuação desastrosa e foi a grande perdedora, apesar de Parente e seu séquito se jactarem de terem feito um bom negócio. Apesar disso, a mídia elogia a gestão mentirosa da empresa e endeusa Pedro Parente. Vá entender!


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