sexta-feira, 17 de abril de 2015

A rua como espaço de aprendizado para todos


Helena Singer, diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz, explica o que são territórios educativos

Sem muros, uma escola se abre para a comunidade. Em simbiose com os demais equipamentos da região, com a rede de proteção à infância, com coletivos artísticos e organizações sociais, os habitantes desse local se articulam para garantir que a rua seja um espaço de aprendizado para todas as idades. A ideia de que só “os especialistas” detêm o conhecimento cai por terra e as pessoas que ali vivem adicionam suas experiências e saberes na construção de um projeto de desenvolvimento local que começa, mas não termina, no campo da educação. Para além do “Se essa rua fosse minha”, uma proposta: E se esse bairro fosse de todos?

A descrição acima parece um pouco fantasiosa, mas já é realidade em diversas comunidades do Brasil que resolveram assumir sua vocação educativa e converteram-se em Territórios Educativos.

Foto: carloscastilla / Fotolia.com
Foto: carloscastilla / Fotolia.com

Mas o que é um Território Educativo?

Para Helena Singer, diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz e organizadora da Coleção “Territórios Educativos – Experiências em Diálogo com o Bairro-Escola”, que acaba de ser lançada pela Editora Moderna, é um lugar que atende a quatro requisitos: possui um projeto educativo para o território criado pelas pessoas daquele espaço; agrega escolas que reconhecem seu papel transformador e que entendem a cidade como espaço de aprendizado; multiplica as oportunidades educativas para todas as idades; articula diferentes setores – educação, saúde, cultura, assistência social – em prol do desenvolvimento local e dos indivíduos.

Essa noção é reafirmada por Juarez Melgaço Valadares, docente da Faculdade de Educação (FaE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para quem o aumento da carga horária das escolas brasileiras tem dado ainda mais relevância para a questão do território. “Não dá para manter esses meninos e meninas na escola por 4, 5, 8 ou 10 horas. Temos que reforçar a ideia de que a escola tem que explorar os espaços da cidade, torná-la educadora e abrir novas possibilidades de aprendizagem.”
Em sua opinião, enquanto local de prática e experiência, o território contempla uma série de saberes que não podem ser desconsiderados pelos espaços educativos em nome da tradição do saber escolar-científico. “Quem conhece a região, domina certos conhecimentos, histórias e culturas. Se você traz a capoeira para a escola, o folclore, esses saberes populares, você tem outros agenciamentos e o jovem é poroso a tudo isso.”

Segundo o professor, a cidade tem espaços que são negados a determinados grupos sociais e que precisam ser ocupados e transformados. Essa relação gera conflitos e antagonismos que poderão ser usados para a transformação de preconceitos e da realidade local. O que funciona para o espaço público, também pode ajudar a escola.

“A saída para a escola – e não digo que é fácil – é continuar a educar, no entanto, radicalizando esse conceito: aceitando vivências e entendendo culturas e processos de sociabilidade. A vivência do território não se opõe jamais ao saber escolar. São complementares”, acredita.

Em São Paulo, o Bairro Educador Heliópolis é um exemplo dessa trajetória, ao congregar, na EMEF Campos Salles, uma pedagogia democrática e autônoma com uma profunda ligação com a comunidade e seus movimentos sociais. Foram-se os muros, abriram-se as portas.

Outros bairros da capital paulista, como Centro, Vila Madalena e Jardim Ângela – embora tenham realidades distintas – compartilham a mesma intencionalidade. Pelo Brasil, Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Nova Iguaçu (RJ) e Sorocaba (SP) vêm realizando suas próprias tentativas de transformar o espaço comum em currículo e já colhem frutos interessantes.

Apesar dos avanços Brasil afora, há muito por fazer quando se fala em Territórios Educativos. Do processo de sensibilização das comunidades e escolas, passando pelos gestores públicos, à incorporação efetiva nas políticas e programas, esse parece ser um dos grandes desafios para a formação de cidadãos autônomos e comprometidos com a democracia no século 21.

Para inspirar bairros, escolas e comunidades, conversamos com Helena Singer sobre o tema. Acompanhe a entrevista:

Que fatores caracterizam um território? E o que o torna educativo?

Helena Singer: Nós identificamos o território como o conjunto de usos que se fazem de um determinado espaço. Já o que o caracteriza como educativo são quatro condições básicas: um projeto para que ele seja educativo, criado pelas pessoas dali em um espaço participativo de construção. Por exemplo, em Heliópolis, existe o Sol da Paz que se reúne a cada ano e define quais são as prioridades do território educador e concilia comunidade e escola.

A segunda condição é que ele tenha escolas que reconhecem seu papel de transformar um território em educativo. Não é central, mas é importante ter uma escola que assume essa vocação e se reconhece com o território, que o vê como campo de pesquisa, currículo, lugar de estudo, que se envolve com as questões locais e propõe a ajudar na sua transformação.

Essa postura da escola fortalece os outros dois elementos: que as oportunidades educativas se multipliquem, com agentes que oferecem espaços de aprendizados não só para crianças, mas também para adultos, ao propor processos permanentes de participação.

E o quarto elemento que é a rede de proteção – formada pela educação, desenvolvimento social, saúde, cultura – que atendem os jovens e se articulam numa perspectiva integrada, buscando alinhamentos comuns para atender as pessoas daquele território e não apenas encaminhando de um serviço pro outro.

Neste sentido, muitas vezes é necessário que haja uma consonância de políticas públicas capazes de dar conta da complexidade de um território. Quais políticas públicas podem incentivar o surgimento e a consolidação de um Território Educativo? Quais sãos os principais desafios nesse campo?

Helena: São aquelas que se desenham de modo intersetorial, como políticas da educação que se constroem em parceria com a cultura, o esporte, o lazer e a comunicação para multiplicar as oportunidades educativas. Claro que a atuação dos coletivos é essencial, mas se o Estado tem uma oportunidade de fortalecer esses âmbitos, o território ganha força. Um bom exemplo são os Pontos de Cultura, que possuem projetos educativos e ficam ainda mais fortes na perspectiva do local onde estão inseridos com o Programa Mais Cultura, que prevê a parceria da escola com o Ponto de Cultura. No campo da proteção, são exemplares as políticas que articulam o conselho tutelar, o posto de saúde e a vara da infância de maneira intersetorial e entendem que o estudante, menino e morador são a mesma pessoa e suas necessidades são vistas de maneira não fragmentária.

O principal desafio é realizar, na prática, essa integração. Um exemplo dessa dificuldade sãos os Centros de Educação Unificada (CEUs), equipamentos que representariam uma política integrada da educação, do esporte e da cultura, mas que enfrentam inúmeros problemas do ponto de vista da gestão, justamente porque a lógica dos setores é fragmentada Por isso, a perspectiva intersetorial deve vir desde o início e pensar o todo da efetivação de uma política.

E a comunidade nesse processo?

Helena: Ela é a grande protagonista. O Território Educativo só se consolida se a comunidade estiver com vontade de fazer. Quando falamos em comunidade, a entendemos no sentido amplo, sem excluir a escola, os agentes da saúde, da cultura etc.

De que maneira a escola se torna um agente na constituição de um Território Educativo?

Helena: A escola é um agente quando ela toma conhecimento de quais são as questões sociais e culturais do território e se pergunta: quem são as crianças e os jovens? Como vivem? Qual é a cultura da família? Do bairro? Qual é o meu papel como instituição primária de sistematização do conhecimento na comunidade? Para mim, esses são os pontos de partida. Ela vai se consolidar como um agente quando a cultura da escola e seu plano de ensino se constroem a partir dessas perguntas.

A Cidade Educadora é a somatória de territórios educativos?

Helena: Não. Uma Cidade Educadora possui territórios educativos, sem dúvida, mas a política urbana como um todo tem que ser pensada numa perspectiva educadora. Isso se dá quando os grandes marcos referencias da cidade, como o Plano Diretor Estratégico e o Plano Municipal de Educação já são concebidos juntos, integrados e em diálogo para que todas as políticas da cidade se desenhem na perspectiva da Cidade Educadora.

Para ilustrar, um exemplo absurdo: digamos que numa cidade todos seus territórios são educativos, mas o transporte público é péssimo e as pessoas não circulam na cidade. Quer dizer, sem políticas que privilegiem a pessoa e não o automóvel, que garantam o usufruto da cidade para todos, não dá para dizer que a cidade é educadora.

Com isso em mente, gostaríamos que você avaliasse a importância em se falar de Cidade Educadora, Bairro-escola e Territórios Educativos no país e na cidade que temos hoje. O que esses conceitos apontam para o nosso futuro?

Helena: A importância disso hoje é expressa em várias pautas que são consideradas prioritárias no Brasil e no mundo, como o reconhecimento do indivíduo e a formação de cidadãos autônomos e comprometidos com a democracia. Está bem claro que a escola sozinha é incapaz de fazer isso, por isso, acreditamos que há a necessidade de articular vários setores para garantir os objetivos da educação. Há também pautas mais atuais, como o enfrentamento dos grandes desafios ambientais – que nos indicam que é preciso um reposicionamento da política, mas sobretudo das atitudes das pessoas, da participação no processo de tomada de decisão e focando-se mais no desenvolvimento local, que pode garantir uma sustentabilidade maior do que em grandes visões desenvolvimentistas.

 Além disso, também há um forte diálogo com a questão do direito à cidade, que no contexto urbano vêm ganhando força e tem forte conexão com a perspectiva dos territórios educativos. Quando se fala em priorizar pessoas no lugar de automóveis e fábricas, estamos falando de Territórios Educativos e Cidades Educadoras.

Quais são as referências teóricas e paradigmas que alicerçam essas reflexões?

Helena: Certamente falamos de um novo paradigma, de superação de uma visão única, iluminista da história, que acredita que a razão e o progresso levariam necessariamente à melhoria das condições de vida das pessoas. No entanto, temos percebido, desde a Segunda Guerra Mundial, que não é por aí. Temos buscado outras ideias, novos paradigmas que deem mais poder e ênfase para a produção e agentes locais, territórios e para uma transformação da vida que vem da vida. Falamos de uma mudança que não acontece só após uma revolução, mas que começa em cada um, cada política, cada grupo que é capaz de transformar parte da vida e, com isso, seu mundo. Acho que neste sentido, Boaventura de Souza Santos e Milton Santos são nomes muito importantes.

E no campo da educação?

Helena: Muitos dos grandes nomes da educação brasileira já falaram sobre educação e sociedade: Anísio Teixeira, Mário de Andrade e Paulo Freire são autores que sempre falaram que a educação sozinha dentro da escola não é a educação que muda o mundo e que a gente tem que entender as pessoas, seus contextos e a educação como um conjunto de processos que envolve a pessoa durante todo seu desenvolvimento. Essa visão integrada está presente na obra de todos esses autores.

 (Porvir/ #Envolverde)
* Fazem parte do Redação na Rua os sites Catraca Livre, Centro de Referências em Educação Integral, Guia de Empregos, Portal Aprendiz, Porvir e VilaMundo.

Fonte: Porvir.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Projeto quer conectar educação e espaço público


Aula em movimento pretende reconhecer ambiente urbano como meio de construção do conhecimento e aprendizado coletivo

Ocupar museus, parques e ruas. Quem disse que a construção do conhecimento precisa estar restrita aos muros da escola? Com a proposta de se apropriar de diferentes espaços públicos, o projeto Aula em Movimento, da Rede Emancipa, quer levar alunos pré-universitários para aprender com a cidade e discutir assuntos como história, geografia e cultura.
Com 11 unidades espalhadas por escolas públicas de São Paulo, desde 2007 a Rede Emancipa oferece aulas gratuitas para estudantes que estão se preparando para ingressar na universidade. “O cursinho sempre teve essa preocupação de levar os alunos para fora da sala de aula”, afirma Lívia Clarete, mobilizadora de projetos da Rede Emancipa. Diferente de outros métodos de preparação pré-vestibular, a instituição diz trabalhar os conteúdos de maneira mais significativas, incentivando diferentes discussões.
Foto: Paulo Ito / Flickr
Foto: Paulo Ito / Flickr

O projeto de propor aulas pela cidade surgiu da necessidade de mostrar para os estudantes que eles podem ter autonomia para aprender em diferentes espaços. A atividade reúne alunos e professores de todas as unidades, além colegas, parentes e qualquer interessado em se juntar ao grupo. “Isso faz sentido porque você sai da decoreba e faz com que o estudante se perceba dentro de uma rede de conhecimento”, defende Lívia.

A primeira aula em movimento foi realizada em novembro do ano passado. O roteiro iniciou com uma volta pelo centro histórico de São Paulo. Em frente ao Theatro Municipal, o grupo aproveitou o cenário para discutiu sobre a Semana de Arte Moderna. Logo ao lado, entre o vai e vem de pessoas, o Viaduto do Chá se transformou em palco para uma aula aberta de geografia, onde foram estendidos mapas chão para falar sobre urbanização e migração. E nada melhor do que falar sobre as primeiras escolas jesuítas no Pátio do Colégio. A atividade foi encerrada no Grajaú, zona sul de São Paulo, onde os alunos fizeram uma comparação da organização da cidade no modelo centro-periferia.

Foto: Divulgação / Rede Emancipa
Foto: Divulgação / Rede Emancipa

“Com a aula em movimento, os assuntos saíram da sala de aula, invadiram as ruas, tomaram o centro e foram parar na ocupação do Grajaú”, conta a professora Renata Vieira, coordenadora da unidade Salvador Allende, na Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio Derville Alegretti, em Santana, bairro da zona norte da capital paulista. De acordo com ela, dessa forma é muito mais fácil tornar os assuntos significativos e assimilar a teoria.

Seguindo o mesmo modelo, em fevereiro a Rede Emancipa também realizou a sua aula inaugural no vão livre do Masp, onde recebeu os novos alunos com debates sobre acesso à cidade e acesso à universidade. Além disso, aproveitou o espaço do famoso museu para apresentações culturais e artísticas.

A próxima aula pública promovida por eles deve acontecer em maio, no Memorial da Resistência, espaço no centro da cidade que abrigava o antigo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops). Para viabilizar esse projeto e pagar os recursos gastos na última atividade, que incluem subsídios para transporte, alimentação e locação de materiais, a Rede está com uma campanha em financiamento coletivo no Catarse. O projeto tem até 20 de abril para arrecadar R$ 3.500. Os apoiadores podem contribuir com valores a partir de R$ 50. Como contrapartida, o autores do projeto prometem convite para um evento para discutir a educação popular na perspectiva de Paulo Freire. (Porvir/ #Envolverde)

Fonte: Porvir.

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segunda-feira, 30 de março de 2015

Relatório do UNICEF apresenta desafios do ensino médio no Brasil

Um relatório lançado pelo UNICEF mostra que universalizar o ensino médio com qualidade permanece, ainda hoje, um dos principais desafios da educação no País. Ainda que nas duas últimas décadas os indicadores de acesso e de permanência tenham evoluído, o Brasil apenas conseguirá universalizar o ensino médio em 30 anos se as condições atuais na educação prevalecerem.

É o que mostra a publicação 10 Desafios do Ensino Médio no Brasil, apresentada hoje no Seminário “Ensino Médio no Brasil: sujeitos, tempos, espaços e saberes”, que está sendo realizado entre 11 e 13 de março, em Belo Horizonte, pelo Observatório da Juventude da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

De 2004 a 2014, o percentual de adolescentes de 15 a 17 anos matriculados no ensino médio aumentou de 47,5% para 59,5%, uma evolução melhor que em anos anteriores. No entanto, cerca de 1,7 milhão de adolescentes de 15 a 17 anos (16,3% dessa população) ainda estão fora da escola, segundo dados da Pnad 2011. Entre os que estão matriculados, 35,2% (em torno de 3,1 milhões) ainda frequentam o ensino fundamental.

“O Brasil conquistou grandes avanços no ensino médio, mas agora é preciso acelerar esse processo e garantir a qualidade do ensino”, diz Mário Volpi, coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes do UNICEF no Brasil. “Isso será possível por meio de metodologias de ensino que estejam em sintonia com o contexto, as vivências e as expectativas dos próprios adolescentes.”
Por essa razão, além de trazer análises e levantamentos estatísticos, o relatório do UNICEF apresenta os desafios apontados por 250 adolescentes que estão fora da escola ou em risco de abandoná-la. O objetivo da pesquisa, realizada pelo Observatório da Juventude da UFMG, foi entender o que os impede de permanecer na escola e progredir em seus estudos.

Foram realizadas entrevistas por meio de grupos focais nas cidades de Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Belém (PA), Fortaleza (CE), São Paulo (SP) e Santana do Riacho (MG) entre outubro e dezembro de 2012 e entre maio e novembro de 2013.

Trabalho precoce, gravidez e violência familiar e no entorno da escola, falta de acesso à escola na zona rural e ausência de proposta pedagógicas inovadoras são alguns dos desafios apontados pelos adolescentes entrevistados, independentemente do lugar onde vivem.

Allan Weskley, de 18 anos, estudante de Belo Horizonte, uma das cidades incluídas na pesquisa, contou que vivencia alguns desses problemas em sua escola. “As turmas começam com 40 alunos e terminam com 25. Todo ano vemos a mesma coisa. Eu converso com meus amigos que pararam e escuto sobre a dificuldade que existe em conciliar trabalho e estudo”, relatou o jovem, que faz parte de um grupo de 80 adolescentes que vai participar do seminário.

Nas entrevistas, os alunos de diferentes cidades fizeram críticas ao currículo, que consideram distante de sua realidade. “Gostaria que os professores deixassem as matérias mais simples, ensinassem alguma coisa que fizesse parte de nossa vida”, disse um adolescente de Fortaleza, que abandonou a escola no ensino fundamental.

O tema da violência esteve presente na pesquisa. Uma adolescente de Brasília que parou de estudar durante o ensino médio relatou: “eu parei de estudar por causa da guerra [disputa entre grupos rivais do tráfico] (…) Tenho medo de ir para a escola e eles tentarem fazer alguma coisa comigo, me matar. Aí, eu não vou mais para a escola”.

Outro ponto levantado pelos entrevistados é a relação que dos alunos com professores. Segundo eles, a escola e os professores não abrem espaços para os alunos se manifestarem. Eles afirmaram que são infantilizados e não são considerados nas decisões sobre o cotidiano escolar. “Tem dias que eu nem mato a aula, a aula é que me mata”, disse um adolescente de Brasília que está cursando o ensino fundamental.

Material inovador

Como parte dos esforços para superar esses desafios, será lançada no seminário desta semana a coleção de Cadernos Temáticos Juventude Brasileira e Ensino Médio. A coletânea foi elaborada em formato de cadernos temáticos, com 13 cadernos referentes aos temas abordados nos módulos do curso e um caderno com propostas de atividades e oficinas que cada professor poderá desenvolver na escola.

Acesse o relatório na íntegra aqui.

Fonte: Unicef

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Filme sobre nova lei florestal começa a ser exibido nos cinemas no dia 30/3


Sessões serão viabilizadas por meio de financiamento coletivo na internet: quando atingido o valor mínimo necessário para a exibição em uma sala, ela será confirmada e outra sessão será aberta para compra. ISA é um dos parceiros da produção
 
O documentário “A Lei da Água – Novo Código Florestal” começa a ser exibido no dia 30/3, em cinemas de várias capitais do País. Dirigido por André D’Elia e com produção executiva de Fernando Meirelles, o filme retrata a polêmica sobre as mudanças da nova lei florestal (12.651/2012), que revogou o antigo Código Florestal, de 1965, e que prevê o que deve ser conservado e pode ser desmatado nas propriedades rurais e cidades brasileiras.

O filme é produzido pela Cinedelia e coproduzido pela O2 Filmes, de Meirelles. O ISA é um dos parceiros da produção, além de WWF-Brasil, Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) e Bem-Te-Vi Diversidade.

O documentário será exibido por meio de financiamento coletivo: uma campanha de crowdfunding promovida pelo Catarse, iniciada na segunda (2/3) e que vai até o dia 30/3, vai levar a obra a sessões em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte (veja como participar).

Para viabilizar sua distribuição e levar o filme a grandes públicos, serão oferecidas sessões únicas para cada cidade. Quando for atingido o valor mínimo necessário para a exibição em uma sala, ela será confirmada e outra sessão para essa mesma cidade será aberta para compra. O longa não possui fins lucrativos e toda a verba gerada será revertida para a divulgação e exibição em universidades, escolas, sindicatos rurais e comunidades.

Ao fim de cada sessão, haverá um debate especial sobre o filme e a distribuição de uma cartilha sobre a nova lei florestal. “Em um momento como o que estamos vivendo, de crise hídrica, o público tem solicitado cada vez mais exibições do filme, até mesmo para entender o Código Florestal aprovado pelo Congresso Nacional”, explica André D’Elia.

Além disso, também estão sendo organizados cinedebates em organizações da sociedade civil, movimentos sociais, escolas, universidades e comunidades por todo o País.

Ambientalistas e ruralistas

Realizado ao longo de 16 meses, com entrevistas em Brasília, Mato Grosso, Pará, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, “A Lei da Água” dá voz a ambientalistas, cientistas, ruralistas e agricultores que acompanharam de perto a controversa tramitação do novo Código Florestal no Congresso.

O filme alerta sobre as consequências do novo Código Florestal – que anistiou 29 milhões de hectares desmatados ilegalmente em todo País – e sobre o que ainda pode ser feito para evitar mais prejuízos ao meio ambiente. O impacto sobre a capacidade da floresta de proteger e abastecer mananciais de água e, assim, prevenir crises como as que afetam São Paulo hoje, por exemplo, é um dos temas centrais da produção.

O documentário vem a público no momento em que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) quatro Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADins) contra a Lei.

“O Código Florestal Brasileiro deve ser bom para a agricultura, deve ser bom para a floresta e deve ser cumprido. Espera-se que o público compreenda as questões relacionadas à lei, podendo decidir por si próprio o que é melhor para o Brasil. E que vença a melhor ideia!”, afirma o diretor.
* Com informações da O2 Filmes.
  


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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ecoalfabetização


“Nossos alunos precisam ser ensinados que o crescimento econômico – quando acontecer – deve vir em conjunto com a justiça social, sempre resguardando a proteção do meio ambiente”, propõe o economista Marcus Eduardo de Oliveira .

Ao desconsiderar o sistema ecológico em toda sua amplitude na peculiar relação que mantém com o sistema econômico, a teoria econômica tradicional ignora assim, de fato e de direito, o que se sucede em termos de movimentação dentro da atividade econômica produtiva, a saber: entra (materiais) e sai (resíduos); entra matéria e energia, sai ejetada poluição e detritos.

Dessa forma, fluxos de entrada (materiais e energia) e de saída (produtos e resíduos) precisam ser considerados, e não relegados ao esquecimento, como tem sido comum pelas lentes míopes da economia neoclássica, envolta numa macroeconomia que não mantém vínculos estreitos com as coisas da natureza.

Trata-se, portanto, de enorme equívoco enxergar a atividade econômica de forma isolada, sem interação com o meio ambiente. Cabe aqui contextualizar que a economia é apenas uma parte de um todo; o todo é o meio ambiente.

Nesse sentido, o diálogo entre essas duas ciências (sociais e naturais) é cada vez mais necessário. A “conversa” entre a Economia e a Ecologia tem obrigatoriamente de acontecer para que a conscientização ecológica se faça presente, até mesmo porque “não existe sociedade (e economia) sem sistema ecológico, mas pode haver meio ambiente sem sociedade (e economia)”, como bem asseverou o professor Clóvis Cavalcanti.

De forma inequívoca, o processo de produção econômica vem necessariamente acompanhado da geração de resíduo e poluição. Logo, toda a produção econômica “carrega” consigo elementos do processo ecológico.

De toda sorte, essa relação entre a economia e o capital natural, cada vez mais emblemática, envolve alguns aspectos pertinentes: alterações do clima que são potencialmente provocadas pela ação do homem-econômico; exagero de produtos tóxicos ejetados no meio ambiente como resposta às políticas de crescimento da economia sem o menor respeito aos limites físicos da natureza; a falta de energia e matéria para lidar com as manifestações e os desejos da sociedade de consumo que são cada vez mais intensos e seguem sendo ilimitados.

Percebe-se assim que cada vez mais esses “fatos” apontam para a necessidade de se consolidar um novo modo de pensar a atividade econômica a partir da perspectiva da inserção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos (equilíbrio climático, fotossíntese, oferta de solos, ciclos geoquímicos, água limpa e outros) no conjunto da análise econômica moderna, superando, pois, o caráter reducionista presente nas análises neoclássicas.

Todavia, isso só será possível mediante o estabelecimento, em definitivo, de um diálogo entre os dois sistemas: o econômico e o ecológico.

Como estabelecer esse diálogo? Uma boa resposta para isso vem mediante a implantação daquilo que Fritoj Capra chama de ecoalfabetização. Isso proporcionará (e possibilitará) condições essenciais para o desenvolvimento de um novo modo de pensar a atividade econômica.

Estamos convencidos que, enquanto não mudarmos a forma de produção, respeitando, prioritariamente, os ciclos da natureza, longe ficaremos da condição de se alcançar bem-estar humano sustentável e, cada vez mais aprofundaremos o crescimento econômico fútil, baseado no consumo material, em geral, recheado de suntuosidades.

Combater os excessos e entender que o progresso humano não pode ser confundido com o crescimento material é uma primeira e decisiva etapa para a consolidação de uma ecoalfabetização.
Se almejarmos obter uma vida mais tranquila num mundo mais bem desenvolvido, chegou a hora de pôr um fim na dilapidação que vem sofrendo o capital natural por conta das atividades econômicas exercerem forte pressão sobre os recursos da natureza.

Para isso, é fundamental disseminar essa espécie de “consciência ecológica”. Essa consciência ecológica passa por eliminar o “analfabetismo ecológico”, termo criado por Capra – visando praticar a ecoalfabetização.

Para tanto, desde a base, ou seja, a partir dos primeiros anos de ensino-aprendizagem, se faz necessário colocar nossos alunos em contato com os valores que norteiam às ciências ecológicas.
Em paralelo, há de se desenvolver uma política nacional de educação ecológica, uma verdadeira ecoalfabetização que seja capaz de sensibilizar a todos para a importância que representa o sistema ecológico em nossas vidas.

Nossos alunos precisam ser ensinados que o crescimento econômico – quando acontecer – deve vir em conjunto com a justiça social, sempre resguardando a proteção do meio ambiente.

Faz-se necessário ainda, nesse rol de ações, desenvolver plena consciência de que a natureza é a provedora inicial das necessidades humanas e dela dependemos para sobreviver.

 Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba.
 
Fonte: Adital.


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