Ainda lembro, como se fosse ontem, dos meus pais sentados na sala com
o vendedor de enciclopédias, analisando as formas de pagamento
parcelado para adquirirmos as duas dezenas de livros da “Mirador” –
incluindo o direito de receber, periodicamente, um Livro do Ano com
atualizações sobre o Brasil e o mundo. Não foi uma decisão fácil… Aquilo
era caro, as prestações, muitas, o orçamento – como sempre – apertado.
Mas era um investimento para a educação dos filhos. Comprada, ficou
durante anos em um lugar nobre da sala, desbancando a enciclopédia
“Conhecer”, que até então fazia as vezes de fonte de conhecimento geral
da casa.
Por esses dias, fazendo uma organização nos meus livros,
deparei-me com uma inquietação: o que fazer com as enciclopédias? Elas
ocupam um espaço precioso e não são consumidas há muitos anos – a não
ser por alguma traça saudosista. Cheguei a separar os livros de capa
dura e cor vinho com detalhes em dourado da Conhecer para enviar a algum
lugar. Mas onde?
Doar para alguma escola? Se a direção da
instituição não visse isso como um insulto, os alunos iriam usar como
suporte de monitor, mesma finalidade que muitos de nós damos às listas
telefônicas. Tentar um escambo em algum sebo? Com sorte, talvez
conseguisse trocar todo o conjunto por um Almanacão da Turma da Mônica
sem pagar muita diferença. Em tempos de Google e Wikipedia, quem dá
tanta importância ao conhecimento enciclopédico de papel?
No
início da década de 90, chegou à casa dos meus pais um PC-AT 486 DX2 66
Mhz. Na época, era uma sensação – não havia nada mais rápido. Portanto,
natural que houvesse uma certa reverência à máquina bege, que desbancou a
televisão, um vaso de estimação e a enciclopédia, ocupando o lugar de
objeto mais importante da sala. Anos depois, meu pai vendeu o 486 e
comprou outro, mais novo. Lembro que minha mãe ficou possessa porque iam
pagar apenas uma parte ínfima do valor que havíamos gasto, em suadas e
longas prestações. Não adiantou falar que a tecnologia avança, barateia,
Lei de Moore, essas coisas. Se o carro podia ser vendido por mais da
metade do preço de compra, por que o micro não?
Quando pensei em
me livrar das enciclopédias pela primeira vez, recebi a mesma
advertência – de não ser enganado ao passá-las para frente. Tipo, “não
troque esses livros por feijões mágicos”. Afinal de contas, aquilo era
suor em forma de papel. Devido à culpa incutida lá no fundo em
decorrência dessas “sugestões”, as mantive por todo esse tempo.
Mas
que sentido faz guardar trambolhos? Observei as centenas de livros nas
minhas estantes e depois as dezenas de títulos que já ocupam a memória
do tablet. E, num ato de bom senso, desci com a enciclopédia para a
coleta seletiva. Seria um fim digno para ela: morrer e reencarnar em
outro papel. Quem sabe mais leve, como um livro de fotos de viagem.
Picante, como a páginas de um “catecismo” moderno. Ou mais técnico e
exigente, como um manual de engenharia.
Decidi ficar com um livro
de recordação. Passei a folhear a criança e me lembrar dos trabalhos,
datilografados na lustrosa Olivetti azul, que tiveram esse livro como
fonte. Lembranças boas de um período em que tudo era mais fácil, com
mais certezas que dúvidas.
Um verbete me lembrou de uma menina da
escola de quem eu gostava e, por isso, sempre dava um jeito de fazer os
trabalhos com ela. Outro, de uma tarde que passei com os amigos
pesquisando para um trabalho e conversando sobre o que seríamos quando
fossemos adultos – isso se o mundo não acabasse no ano 2000. Sem contar
as vezes que lia aleatoriamente sobre vários países, sonhando acordado
com lugares que, anos mais tarde, viria a transpor ao papel como
jornalista.
Aí me deu um treco. Corri descalço os três andares que
separam meu apartamento da rua. Perto da lixeira, o montinho de livros
estava bem menor – provavelmente por conta de transeuntes que acharam
aqueles tomos pitorescos e os levaram para casa. Reuni o que sobrou e
subi com eles, recolocando-os na estante.
Mais do que um fetiche,
os livros haviam deixado de ser uma enciclopédia, tornando-se diários de
memórias – ou de viagem, se preferir. Talvez seja também por isso que
guardamos algumas coisas insignificantes: para nos ajudarem a lembrar de
quem somos através da lembrança do que vivemos e com quem. Nesse
sentido, jogá-los fora é defenestrar uma parte da própria história.
Estão
aqui, de volta, sem muita utilidade imediata, além daquela dada aos
álbuns de fotografia. Talvez, quando eu tiver uma filha ou um filho,
eles servirão como livros de histórias, histórias do pai deles.
Curioso…
Será que meus pais sabiam que, ao adquirir os livrinhos, eles estavam
dando um presente para os próprios netos?
Fonte: Blog do Sakamoto.
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